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O desespero eleitoral do cardinalato midíático (17/10/2010)

Por Toni Bulhões

Muito estranha a matéria que está na ediçao da revista Época desta semana sob o título "Com a benção de Cardeal ".
A reportagem procura estabelecer um vínculo entre um escândalo no financiamento de usinas energéticas de biomassa no sul do Brasil, por um banco estatal estrangeiro, o KfW da Alemanha, e um diretor da Eletrobrás, Valter Cardeal, próximo à canditata Dilma Rousseff.
O inusitado na reportagem é o fato de basear a denúncia apenas em indícios, forçando o envolvimento do executivo e, sem nenhum senso crítico, reconhecer este fato, admitindo isto no próprio artigo. 
Se ainda restavam dúvidas de que uma parte da imprensa brasileira abandonou a seriedade e o compromisso pelo menos com a objetividade daquilo que publica, mesmo revelando suas paixões políticas, a reportagem da Época definitivamente chutou o pau da barraca.

A reportagem tenta de todas as formas dar um "ar" oficial à acusação, revelando ter tido acesso a "documentos" da ação que o banco tenta mover contra a estatal brasileira CGTEE, mas não deixa claro em momento nenhum que o banco, que se acha lesado, pode estar mesmo é tentando reaver seu dinheiro, buscando bodes expiatórios, para esconder o erro dos responsáveis pelo financiamento no próprio banco, em última instância em seu próprio departamento jurídico, por ter permitido uma operação que jamais deveria ter sido aprovada nos moldes em que foi. Neste ponto a reportagem silencia e em nenhum momento questiona a atitude do banco credor. 

Pior que isso, ao procurar mostrar os fatos do ângulo do KfW, a matéria ignora um dos princípios do jornalismo sério, que é a investigação também de quem acusa, em um escândalo destas proporções. Checar suas fontes é obrigação. Tivessem os autores se dado a este trabalho, teriam constatado que o KfW é protagonista dos maiores escândalos financeiros que têm abalado a Alemanha desde a crise financeira de 2008, anos depois, portanto, do financiamento no Brasil.  

Entre as maiores fraudes da história financeira da Alemanha está, por exemplo, uma trasnferência de 350 milhões de Euros feita pelo KfW ao banco de investimentos Lehman Brothers, quando já era oficial a falência do banco norte-americano, no auge da crise de 2008. Este fato, de grande repercussão na ocasião, além de demissões e processos judiciais e galhofas, revelou não apenas uma operação fraudulenta, mas muitos questionamentos sobre o papel de um banco de fomento estar envolvido em operações cambiais nos EUA. Após isso o IKB, pertencente ao KfW, provocou ainda mais terremoto no setor bancário alemão. Os artigos são de fácil acesso pelo Google, se a revista tivesse interesse em tratar sério o assunto. O rombo total foi na época estimado em 600 milhões de Euros. As instituições, criadas para fomento da economia local, estavam envolvidas ilegalmente em operações de derivativos no outro lado do oceano.  

Trazer à tona os fatos agora, pouco antes do segundo turno da eleição presidencial, embora a confusão já venha rolando há 3 anos seria o de menos, se a revista não fizesse abertamente o jogo de tentar, sem provas, envolver até mesmo a própria candidata no escândalo, por ter participado de um encontro com vários eventos em Frankfurt. Nesta linha de raciocínio a reportagem poderia também culpar Dilma Rousseff até mesmo pelo assassinato de John Kennedy, em 1962. Quem sabe ela não andou por Dallas naqueles idos.
A impressão que a Época deixa é a de que, além de tomar partido político de forma escancarada, o cardinalato da imprensa brasileira está perdendo a compostura conveniente para dar-se ao mínimo de respeito com seus leitores.



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