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Terça-feira - 05/08/2003
ABKnet  News
EUA x Velha Europa - A briga pelo domínio
Um confronto na surdina
A vingança do Putin
A arrancada do euro em relação ao dólar nos últimos tempos possui, além de fatores econômicos, uma luta de bastidores com motivos puramente políticos. Apesar de autoridades financeiras norte-americanas afirmarem publicamente que não estão preocupadas com o fato, sublinharem que nada farão para impedir, e que a queda, economicamente, na verdade ajude a maquiar o imenso déficit dos EUA, não é segredo que a ascensão da moeda européia, bem como a própria união monetária dos europeus em si, incomodou e incomoda, colocando ao mesmo tempo em xeque uma hegemonia de mais de cinquenta anos do dólar. O governo Bush tem tentado sorrateiramente nas últimas semanas reverter um pouco a situação, tornando mais atrativos os investimentos em sua moeda. O consumismo dos norte-americanos pode estar seriamente avariado e o país precisa urgentemente fazer alguma coisa para continuar financiando a eterna farra.

A tentativa de divisão política da União Européia feita pelos EUA, e que alcançou seu auge na guerra do Iraque, mostrou-se por outro lado impotente quando o assunto chega ao plano econômico. Os europeus estão tão entrelaçados na União, que sequer podem se dar ao luxo de questionar com divagações, quando a realidade do dia a dia os confronta. E a prova dessa unidade será dada em dezembro próximo em Roma, durante a reunião de cúpula dos europeus. A União Européia vai reafirmar sua intenção de cumprir o papel de principal concorrente dos EUA no plano mundial. Combina com a teoria da multipolarização defendida pelos europeus. Na verdade uma bi-polarização, já que ao restante da comunidade internacional nada restará que entrar na órbita de um ou de outro - caso de satélites como o Brasil.

Os países asiáticos com certeza continuarão na moita, aguardando o desenlace do embate para então, aos poucos, embarcarem onde for mais conveniente.

Com um aglomerado de 25 nações, 450 milhões de pessoas e 25% do PIB mundial, a União Européia não tem outra opção a seguir. O confronto é a consequência natural de um dilema vital: Sobreviver ou morrer por auto-asfixia. 
Os norte-americanos tentam a todo custo minimizar o fato e procuram continuar no pódio mesmo que, para assegurar estrategicamente o futuro, não relutem em lançar mão de ameaças subliminares ou deliberadas e, em último caso, de sua poderosa vantagem bélica. A melhor dosagem entre os ensinos de Maquiavel e as  lições do antigo império romano provavelmente irá decidir os destinos do planeta nos próximos (no mínimo)  decênios.

Uma das próximas e grandes cartadas no jogo será dada pela Rússia, que tenta a todo custo recuperar um pouco a influência que já teve. Cientes de que têm sido marginalizados sintomaticamente pelos EUA, os russos compreenderam que a melhor saída é aproximar-se do bloco europeu. Sem falar de razões geográficas. É, idem a única forma de retomar um bonde que não espera por ninguém, o bonde da história. Para isso Putin já tem preparada na manga sua carta da vez: Falta pouco para os russos tornarem oficial a decisão de transformar o euro na moeda base de suas exportações do setor energético. Seria o nascimento do Petroeuro. Um grande passo nos planos da União Européia, que vem sendo trabalhado na surdina. Como argumento de convencimento os europeus possuem dados incontestáveis. Mais de 50% das exportações de petróleo e gás dos russos vai para a UE. Sem falar no restante das nações do velho continente que não pertencem à União, mas dependem tanto da mesma como do petróleo russo. Um acordo que satisfaz a todos, portanto. E coloca um enorme mosca na sopa dos EUA. O Petroeuro pode impulsionar a derrocada definitiva da moeda norte-americana como padrão monetário internacional.

Resta saber quem será quem na área de países-satélite e dependentes como o Brasil. Embora a oportunidade de barganha e influência para nações emergentes e do terceiro mundo seja grande, a falta de coordenação, visão e organização dos mesmos impede-os de obter lucros políticos econômicos da situação. A falta de líderes com perfil decidido que os representem e referenciem, a ausência de metas conjuntas, a eterna dispersão nos objetivos comuns e, não por derradeiros, corrupção, pragmatismo, submissão resignada e mesmo temor, fazem com que este importante segmento de nações corra simplesmente por fora da raia, ao invés de servir como o fiel da balança, decidindo o jogo em benefício de seus povos e quem sabe ditar algumas regras do jogo.

Não admira que, enquanto o dólar cai, estes países lutam desesperadamente para não deixá-lo subir descontroladamente. Pode ser entretanto, que este seja o sinal de que estes países já decidiram antecipadamente de qual lado estão na disputa. Uma pena, porque o jogo está apenas começando e somente peru morre de véspera.

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