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Domingo - 18/12/2005
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Águia de Hongkong: Celso Amorim mudou a história da OMC

Amorim em Hongkong: O Vôo do Águia

A história da Organização Mundial de Comércio (OMC) pode ser definida em duas fases: A Pré e a Pós-Amorim.
Fundada em 1995, hoje com 148 países, a organização teria por objetivo promover  políticas relativas ao comércio, investimentos, reformas e desregulamentações internacionais, executar e fiscalizar acordos, protegendo os interesses e estabelecendo igualdades nas relações entre o hemisfério norte e sul, o lado rico e o lado pobre do mundo.
Teria, pois, apesar dos princípios estabelecidos nos estatutos da organização, a OMC não passava de um clube onde o bloco da União Européia e os EUA determinavam as diretrizes (sempre de acordo com seus interesses) e o resto dos membros acenava com a cabeça. Era uma roda de jogo com cartas marcadas, onde os ganhadores sempre eram os mesmos, os ricos e poderosos do primeiro mundo.

Práticas feudais e imorais

Sem espasmos ideológicos, diplomático mas direto e sem metáforas, foi chefiando a delegação brasileira na reunião de Cancún, em 2003, que Amorim começou a embaralhar as cartas do jogo dos poderosos e a romper a subserviência às práticas feudais centenárias dos países ricos, como ele diz abertamente, seja no pódio de discussões, seja em entrevistas à mídia internacional.
Ali, no palco de freqüentes furacões caribenhos, o bloco de países em desenvolvimento travou o vendaval primeiro-mundista, fincou pé nos seus interesses e fez fracassar, diante da resistência, as negociações do encontro. Um fracasso com gosto de vitória. A voz dos rebeldes: Celso Luiz Nunes Amorim.

Era a primeira vez que, decididamente, os membros mais pobres da organização faziam valer seus direitos e interesses, sem consideração de perdas e riscos. Amorim, um homem sem as bravatas típicas dos populistas nativos das regiões que representa, conseguiu o mais importante em um duelo onde o lado mais fraco já parte em desvantagem: Respeito.
A partir de então, principalmente os europeus passaram a recompor seus princípios e a contabilizar, nos seus cálculos para as negociações, as relações custo-benefício (ao invés de só benefício) de suas políticas coloniais, as vantagens e desvantagens (ao invés de só vantagens), onde antes somente valia o unilateralismo de interesses. Aprenderam que o comércio internacional, a propalada globalização, precisa ser uma via de duas mãos.

Noticiário ressalta sempre o brasileiro

Quem nesses dias abre as páginas dos jornais europeus e procura o noticiário da reunião da OMC em Hongkong, pode constatar o peso da importância que o representante brasileiro adquiriu. Os meios de comunicação passaram, sem exceção, ao referenciar o andamento das negociações, a levar em conta e analisar a posição defendida por Celso Amorim, como representante do Brasil e do grupo de países em desenvolvimento, o chamado G 20. Alguns meios sequer citam outro nome em suas notas.
Baluartes do capitalismo sem fronteiras, como as edições do Bloomberg e Forbes, tradicionais formadores de opinião como o The Guardian ou BBC britânicos e influentes periódicos, como os alemães Süddeutsche Zeitung e Spiegel, trazem as posições defendidas, entrevistas e até mesmo curtas biografias do brasileiro. Alguns deles, como o Süddeutsche,  apontam-no como o "grande estrategista do comércio para os pobres", outros especulam sobre a possibilidade de sucesso das posições de seus países, analisando os prós e contras do ponto-de-vista de Amorim com relação a eles.

A suada vitória da reunião de Hongkong já está protocolada. Os subsídios agrícolas nos países desenvolvidos estão com morte decretados. A data limite anunciada é 2013. Amorim conseguiu, em dois anos de trabalho persistente, sem espalhafates, o que ninguém acreditava dez anos atrás, cem anos atrás. A queda de subsídios algodeiros deve já acontecer no próximo ano. Governos europeus consideram os resultados uma derrota.


Manter o foco, conciliar contradições e seguir caminho diverso do próprio governo

Por outro lado, Organizações Não-Governamentais internacionais, como Attac ou Greenpace, analisam como poucos os avanços e resultados. É legítimo que elas exijam mais. É justo esperar mais rapidez no atendimento às reinvidicações dos pobres. Estas ONGs, que reconhecem também o importante papel de Amorim, esquecem, entretanto, a dificíl tarefa de aglutinar em um bloco países tão diferenciados como uma ditadura primitiva, tal a de Zimbawe, economias nebuloso-comunistas como a China, nanicos rebeldes e inquietos como Cuba, regimes de mentalidades imprevisíveis como Indonésia, rivais econômicos regionais como Chile e Argentina e, não por último, governos ditos de esquerda, mas afogando-se em um mar de corrupção típico de repúblicas de bananas, como o Brasil, país que representa. Amorim fez isso sem ceder à retórica do populismo e da bravata, sem tiques político-ideológicos. Foi objetivo, perseguiu o alvo principal.
O diplomata brasileiro tem seus limites: Apesar de não ser sua área de atuação primordial, poderia assumir uma posição mais clara que a de seus colegas da economia (discípulos e sucessores de Malan), com relação ao FMI, por exemplo. Pode-se admitir, contudo, isso foge de suas atribuições diretas, que não são a política econômica do governo.

É um longo caminho a percorrer. Celso Amorim foi o quebra-ondas que impôs freio ao mar bravio. Negócios e acordos internacionais não são coisas imediatas, automáticas. Exigem tempo, vigilância, paciência, habilidade e muita, muita diplomacia.  


O Águia de Hongkong

O ministro conseguiu, sem possuir sequer filiação  partidária, ocupar um posto de primeiro escalão em um governo petista e, enquanto o governo que participa decidia o continuísmo do antecessor, o alinhamento ao grande capital internacional e o "cordeirismo obediente" perante os colonialistas de sempre, ele adotou exatamente um percurso contrário, o percurso que se era de esperar de quem diz ser um governo de esquerda. É de espantar que tudo isso aconteça à revelia dos escândalos e estripulias que seus colegas governistas protagonizam.

Diz a lenda que Ruy Barbosa, o tribuno brasileiro do inicío de século passado, ficou conhecido como o "Águia de Haia", durante a Conferência Mundial da Paz, em 1907. Na verdade há indícios de que, fora ele e alguns jornais  brasileiros de então, ninguém mais no resto do mundo deu-se conta do fato.
Sendo isso verdade, com Amorim ocorre o contrário. Não fala-se em águia, claro, mas credita-se a ele a liderança inconteste e a reviravolta ocorrida na OMC. Enquanto mídia e governos internacionais se espantam com o homem de ar professoral, voz calma mas decidida, e exímia capacidade de negociar e conciliar extremos, alcançando objetivos até pouco impensáveis, no Brasil a rotina continua sendo a mesma de sempre: Eternas papagaiadas. Deveriam mirar-se no, este sim, discreto e eficiente águia da diplomacia, o Águia de Hongkong. Menos pela essência do termo, na verdade secundário e polêmico, mas pelo exemplo. Em um vôo de carcará, Amorim roubou a cena para o mundo, e fez jus à plataforma política de um governo que, depois de eleito, fez tudo ao contrário do que prometeu. Com exceção dele próprio, a pedra no meio do caminho do mundo industrial, o Amorim, que não tinha entrado na história.

Copa do Mundo 2006 na Alemanha

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