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O local do encontro foi em Auschwitz. Inacreditavelmente lá estava
eu e a vítima, aquele senhor de quase oitenta anos, mostrando pessoalmente
detalhes do local de sua fuga durante o delírio nazista.
* * * * * Cheguei antes da hora marcada. Havia viajado já no dia anterior porque de onde moro, na Alemanha, até lá são 800 quilometros. Fiquei hospedado a 120 quilometros do campo, pois não posso nunca entrar em acordo comigo mesmo, e ficar hospedado em um hotel sequer perto daquele lugar. Talvez seja um pouco da superstição sem lógica, própria dos brasileiros, fruto quem sabe das nossas raízes culturais. Pouco importa, na localidade de Auschwitz nunca passarei uma noite. Pernoitei em Ratibor, proximidades da fronteira da Polônia com o País Tcheco. No outro dia pela manhã continuei a viagem. Ao lado da entrada principal do campo (Auschwitz 1) funciona um restaurante. É um local simples, pertencente ao próprio campo, de frente para o amplo estacionamento de automoveis e ônibus repletos de turistas, que não param de chegar e sair durante todo o dia. Foi neste restaurante que marcamos para nos encontrar. Entrei tomei um café e fiquei esperando por Jerzy. Ele entrou apressado e a olhar em volta. Eu levantei-me, acenei e fui ao seu encontro. Apertamos as mãos e eu confirmei minha identidade, o abraçando e agradecendo ao mesmo tempo por ter vindo. -É um prazer, é a primeira vez que conheço um brasileiro pessoalmente - disse ele em seguida, o que me surpreendeu. Falamos sobre o passado, sobre Cyla, sobre os camaradas que sucumbiram e os que sobreviveram e falamos sobre os criminosos nazistas. Soube que antes dele já um casal tentara também fugir de Auschwitz. Foram capturados, o homem imediatamente executado e a mulher suicidou-se na cela. Jerzy não deu sinais de ódio. Para mim ele é um homem do povo típico, que ainda guarda sonhos dentro dele, do alto de seus setenta e nove anos. Encontrar com ele e conversar na rua, nunca denunciaria sua condição de ser um sobrevivente do inferno. Jerzy Bielecki poderia simplesmente se chamar José da Silva, pensei eu. Exceto pelo número 243 tatuado no braço. Ele falou que Cyla continua morando em Nova York e que se encontra muito doente. Assim que se recuperar contudo, ela vem mais uma vez à Polônia visitá-lo, contou ele. Falou ainda de sua infância, de seu tempo no ginásio, na região da Cracóvia, quando aprendeu os primeiros vocábulos da lingua alemã, do início de sua juventude quando foi parar em Auschwitz. Dos seis jovens que foram presos de seu grupo, ele foi o único que sobreviveu. Nas comemorações de cinquenta anos
do Estado de Israel ele foi convidado especial, participou de tudo ao lado
de Cyla. Recebeu a mais alta condecoração do estado
judeu, conheceu Jerusalém.
* * * * * Olhamos a cerca em cujas proximidades ele presenciou pela primeira vez o monte de cadáveres à espera da incineração a céu aberto. Em Birkenau olhamos os trilhos que traziam inocentes de todos os lados da Europa, direto para a morte. Houve momentos que ele pouco falava. Também nem precisava. Auschwitz dispensa palavras, como sempre repito. Ao partir trocamos um grande e forte abraço. Jerzy pediu-me para agradecer a todos pelo interesse frisando que, após tantos anos, parece ironia causar admiração a pessoas de lugares longínquos como o Brasil. Por um momento me senti como se o Brasil houvesse me enviado à Auschwitz para encontrá-lo e falei que agradeceria sim, em seu nome, a todos. Ficamos de permanecer em contato. A última notícia que recebi foi de que sua história recebeu um roteiro e encontra-se para estudos em Los Angeles, onde poderá vir a ser filmada. Hollywood goes to Auschwitz, mais uma vez. Abaixo algumas fotos (e fotos de fotos) que tirei neste dia. Algumas
antigas recebi do próprio Jerzy, outras foram feitas enquanto percorríamos
os pátios e corredores do campo e colocadas em links para tornar
o tempo de carregamento desta página menor.
Leia a história da fuga de Jerzy e Cyla * * * * *
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