ABK NET 
Notícias - Reportagens - Produções

[ Home |  | Volta  | Feedback ]
.
Jerzy Bielecki, prisioneiro 243  de Auschwitz
(todos direitos Abknet)
.

Jerzy Bielecki vê os jornais do Brasil,  à direita Bulhões

O local do encontro foi em Auschwitz. Inacreditavelmente lá estava eu e a vítima, aquele senhor de quase oitenta anos, mostrando pessoalmente detalhes do local de sua fuga durante o delírio nazista.
Ele mora algumas centenas de quilometros distante de lá, em Nowy Targ.
Antes falamos como sempre por telefone. Falei da repercussão de sua história no Brasil através da homepage da Abknet, falei dos numerosos e-mails que chegaram e dos artigos que diversos jornais do país publicaram, baseando-se na reportagem em capítulos que colocamos na rede. Disse que eu iria a Auschwitz e na viagem passaria na sua cidade para encontrá-lo e conversar um pouco pessoalmente. Levaria os jornais e e-mails que entregaria para seu arquivo pessoal.
A proposta partiu dele para minha surpresa: Ele poderia talvez ir Auschwitz, iria ver. Em todo caso eu deveria telefonar novamente dali a algums dias. Dito e feito.  Dias após isso telefonei e  Jerzy confirmou que poderíamos nos encontrar no campo de concentração.

* * * * *

Era um dia de sol. O sol que brilha em Auschwitz entretanto, sempre será um sol suspeito.
Cheguei antes da hora marcada. Havia viajado já no dia anterior porque de onde moro, na Alemanha, até lá são 800 quilometros. Fiquei hospedado a 120 quilometros do campo, pois não posso nunca entrar em acordo comigo mesmo, e ficar hospedado em um hotel sequer perto daquele lugar. Talvez seja um pouco da superstição sem lógica, própria dos brasileiros, fruto quem sabe das nossas raízes culturais. Pouco importa, na localidade de Auschwitz nunca passarei uma noite. Pernoitei em Ratibor, proximidades da fronteira da Polônia com o País Tcheco. No outro dia pela manhã continuei a viagem.
Ao lado da entrada principal do campo (Auschwitz 1) funciona um restaurante. É um local simples, pertencente ao próprio campo, de frente para o amplo estacionamento de automoveis e ônibus repletos de turistas, que não param de chegar e sair durante todo o dia. Foi neste restaurante que marcamos para nos encontrar. Entrei tomei um café e fiquei esperando por Jerzy.
Ele entrou apressado e a olhar em volta. Eu levantei-me, acenei e fui ao seu encontro. Apertamos as mãos e eu confirmei minha identidade, o abraçando e agradecendo ao mesmo tempo por ter vindo.
-É um prazer, é a primeira vez que conheço um brasileiro pessoalmente - disse ele em seguida, o que me surpreendeu.
* * * * * 
Conversamos longamente antes de andar pelas dependências do campo. Jerzy também fez perguntas. Quis saber como consegui localizá-lo no início, como divulgamos sua história no país (a internet é algo ainda não muito difundido na Polônia, pelo menos para Jerzy, tive a impressão) e o interesse dos brasileiros sobre o assunto. 
Falamos sobre o passado, sobre Cyla, sobre os camaradas que sucumbiram e os que sobreviveram e falamos sobre os criminosos nazistas. Soube que antes dele já um casal tentara também fugir de Auschwitz. Foram capturados, o homem imediatamente executado e a mulher suicidou-se na cela. 
Jerzy não deu sinais de ódio. Para mim ele é um homem do povo típico, que ainda guarda sonhos dentro dele, do alto de seus setenta e nove anos. Encontrar com ele e conversar na rua, nunca denunciaria sua condição de ser um sobrevivente do inferno. Jerzy Bielecki poderia simplesmente se chamar José da Silva, pensei eu. Exceto pelo número 243 tatuado no braço.
Ele falou que Cyla continua morando em Nova York e que se encontra muito doente. Assim que se recuperar contudo, ela vem mais uma vez à Polônia visitá-lo, contou ele.
Falou ainda de sua infância, de seu tempo no ginásio, na região da Cracóvia, quando aprendeu os primeiros vocábulos da lingua alemã, do início de sua juventude quando foi parar em Auschwitz.
Dos seis jovens que foram presos de seu grupo, ele foi o único que sobreviveu.

Nas comemorações de cinquenta anos do Estado de Israel ele foi convidado especial, participou de tudo ao lado de Cyla. Recebeu a mais alta condecoração do estado judeu, conheceu Jerusalém. 
Quem diz que Auschwitz é uma mentira, desrespeita a dignidade dos mortos, pisoteia os cadáveres da mesma forma como ele viu há quase sessenta anos atrás, ressalta Jerzy.

* * * * * 

As duas últimas horas do encontro passamos andando pelo campo. Jerzy explicava cada detalhe de então. Mostrou o banheiro no qual recebeu do companheiro as peças do uniforme da SS que usou para fugir com Cyla. Mostrou o portão pelo qual entrou em Auschwitz há 59 anos. Ele faz parte do grupo de 728 jovens que inaugurou o campo em 1940. Mostrou a foto da chegada deste grupo, exposta na sala de um dos prédios do complexo.
Olhamos a cerca em cujas proximidades ele presenciou pela primeira vez o monte de cadáveres à espera da incineração a céu aberto. Em Birkenau olhamos os trilhos que traziam inocentes de todos os lados da Europa, direto para a morte.
Houve momentos que ele pouco falava. Também nem precisava. Auschwitz dispensa palavras, como sempre repito. 
Ao partir trocamos um grande e forte abraço. Jerzy pediu-me para agradecer a todos pelo interesse frisando que, após tantos anos, parece ironia causar admiração a pessoas de lugares longínquos como o Brasil.
Por um momento me senti como se o Brasil houvesse me enviado à Auschwitz para encontrá-lo e falei que agradeceria sim,  em seu nome, a todos. Ficamos de permanecer em  contato.
A última notícia que recebi foi de que sua história recebeu um roteiro e encontra-se para estudos em Los Angeles, onde poderá vir a ser filmada. Hollywood goes to Auschwitz, mais uma vez.

Abaixo algumas fotos (e fotos de fotos) que tirei neste dia. Algumas antigas recebi do próprio Jerzy, outras foram feitas enquanto percorríamos os pátios e corredores do campo e colocadas em links para tornar o tempo de carregamento desta página menor.
Por fim agradeço a todos pelo imenso apoio. Foram mais de dois mil quilometros, muitas horas de trabalho, pesquisas, despesas, telefonemas, etc.  mas no fim  a gente tem uma certeza convicta de que tudo é pouco para evitar o passado ser esquecido. Principalmente quando o passado se chama Auschwitz.





Leia a história da fuga de Jerzy e Cyla

* * * * * 
Fotos:
Cyla alguns meses após a fuga 
Chegada do grupo de Jerzy, que inaugurou Auschwitz em 1940
Portal do campo pelo qual Jerzy e seu grupo entraram em Auschwitz 1
Cerca de cujas proximidades Jerzy presenciou pela primeira vez o assassinato em massa
Entrada de Auschwitz-Birkenau, os trilhos da morte
Banheiro coletivo onde Jerzy recebeu aos poucos o uniforme da SS que precisava para a fuga
Jerzy e seu irmao no inverno 1945/46
Foto dramática de criancas vítimas das experiências praticadas em Auschwitz

Veja outros assuntos clicando aqui

[ Home |  | Volta  | Feedback ]

ABKNET -  Pfarranger  4 -  84416  Taufkirchen / Vils -  Germany
 Tel.: 0049 - ( 0 ) 8084 - 3359        Fax: 0049 - ( 0 ) 8084 - 7785