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Apaixonados
em Auschwitz
Uma História
de Amor no Inferno
Crematóriodo campo: Chaminé da morte
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1- O Silêncio que grita
Era verão de 1940. As tropas nazistas que ocupavam a Polônia
promoviam uma permanente e incessante caça às bruxas no país.
Intelectuais, artistas ou estudantes eram tidos como potenciais conspiradores
contra o regime estabelecido. A Gestapo e os colaboracionistas propagavam
o medo e incentivavam a delação ao menor sinal de suspeita.
Instigavam a população à denúncia, mesmo sem
provas, e contribuíam para que as prisões fossem aos poucos
adquirindo superlotação. Filip Staniek tinha dezenove anos,
iniciava naqueles dias os estudos de Matemática e Física
quando foi preso e trazido para Tarnow, cidade a mais ou menos 90 quilômetros
leste da Cracóvia, sul do país.
Estava já há algumas semanas encarcerado ao presenciar,
uma manhã, a chegada de outros seis jovens, que foram distribuídos
nas celas já quase lotadas. Foi a primeira vez que viu Jerzy Bielecki,
também com 19 anos, junto com os outros cinco companheiros detidos.
Passaram a compartilhar o mesmo destino.
Jerzy e seus amigos foram denunciados por um agente da Gestapo infiltrado
no grupo rebelde a que pertenciam, e surpreendidos quando tentavam cruzar
a fronteira. O objetivo era chegar à França e fazer parte
da "Armia Krajowa", a Armada da Pátria, braço armado da resistência
polonesa, que começava a se organizar em território francês.
Alguns dias depois já chegava às celas a notícia
de que seriam logo transportados para outro lugar. O destino que os aguardava,
como prática corrente dos alemães naqueles tempos, nunca
era dito ou explicitado.
***
Às cinco horas da manhã de 14 de Junho de 1940, todos os
prisioneiros de Tarnow, 728 jovens àquela altura foram trazidos
para fora das celas, dispostos em filas paralelas em frente à prisão
e tocados em marcha, na direção da estação
ferroviária local.
Ao embarcar no trem que os esperava, os acompanhava, além das
metralhadoras nazistas, uma incerteza que somente se dissipou quando do
desembarque, no gesto automático de ler a placa com o nome da localidade
exposta na estação final da viagem: "Oswiecim", nome de origem
polonesa, que ficaria conhecido mundialmente pela sua versão germanizada:
-Auschwitz.
Ao sair do trem Jerzy e os outros estavam esgotados, depois de horas
a fio em pé e espremidos nos vagões. Ele percebeu que alguns
caíam sem forças, chegando a ser pisoteados. O movimento
frenético e os gritos dos soldados da SS eram de apavorar mesmo
o mais forte entre eles.
Ele observou o símbolo da caveira nas boinas da temida tropa
especial nazista. Os homens da SS arrastavam dos degraus de descida os
mais vagarosos, fazendo uso contínuo dos cassetetes. Eles formaram
uma ala por onde os prisioneiros foram impelidos em fila, tangidos como
animais até a área do campo de concentração.
Os brados e gritos são para muitos dos recém-chegados
ininteligíveis e isso tornava o temor ainda maior. Jerzy teve
uma impressão que veio a revelar pouco depois: "Agora estamos pisando
o chão do inferno".
À frente do portal de entrada do campo lê-se ainda hoje,
gravada em ferro e em alemão, a frase imprescindível
da propaganda nazista, exposta em todos os campos de concentração:
-" Arbeit macht frei " , - O trabalho liberta.
A primeira coisa que se aprendia em Auschwitz, eram os comandos militares:
"Marche! Direita volver! Marche!". A impressão era que, em alemão,
estes comandos soavam mais militares e autoritários que em polonês.
Na entrada do campo os prisioneiros reunidos ouviram o oficial da SS,
Karl Fritsch. A preleção de boas vindas:
" - Vocês não chegaram aqui a uma colônia de férias
e sim a um campo de concentração alemão. Ninguém
foge de Auschwitz. A única saída daqui é a chaminé
do crematório! Se há judeus entre vocês, fiquem sabendo
que não têm direito a mais de duas semanas de vida. Sacerdotes
um mês. O resto três meses ".
***
O crematório era a alternativa oficial e reconhecida ao sepultamento.
Todos sabiam que, morrendo ali, seriam cremados, independente da religião,
crença ou vontade. Até aquele momento contudo, os crematórios
não faziam parte da máquina industrial criminosa de Hitler
e seguidores.
A cremação foi introduzida na Europa no século
anterior mas, nunca muito popular, era até proibida em alguns países.
A primeira incineração de cadáveres através
de um forno crematório ocorreu em Dresden, na própria Alemanha,
no dia 9 de Outubro de 1874. O forno usado foi um protótipo produzido
por uma pequena empresa de um alemão chamado Friedrich "Siemens".
***
Após a preleção de chegada ao campo, iniciava-se a
numeração dos prisioneiros. Jerzy e os outros costuraram
o número recebido junto com um triângulo vermelho, que identificava
presos políticos, e a letra P para a nacionalidade, na roupa listrada
de azul e branco. Ainda não havia sido introduzido o sistema de
tatuagem dos números. O grupo polonês foi o primeiro a chegar
a Auschwitz. Filip recebeu o número 178, Jerzy o 243.
Iniciava-se aí o funcionamento da maior engrenagem de dizimação
humana que os nazistas criaram. Jerzy, como vítima e testemunha,
assistiu desde o começo o transporte em massa para o campo, conheceu
por dentro o mecanismo da imensa máquina responsável pela
Solução Final em todas as nuances.
"Depois de dois ou três meses", conta ele, " não éramos
mais 728 e sim alguns milhares". Até o fim de 1940 já viviam
quase 8000 pessoas no campo.
"Em Novembro já morria o primeiro de nós", continua Jerzy,
" morreu de receber espancamentos. Estava doente e não podia mais
trabalhar". Em pouco tempo ele próprio perdeu 18 quilos e já
era tomado dos pressentimentos de que a sua "vez" estava chegando.
A rotina do dia a dia em Auschwitz, fazia criar entre os prisioneiros
uma estranha, nunca antes imaginada relação com a morte.
A sistemática e ininterrupta massificação do óbito,
fazia nascer a resignação com o próprio destino, a
certeza de que, num golpe de sorte, teria-se uma sobrevida de alguns dias,
talvez semanas, ou a diferença seria de horas, talvez minutos. A
qualquer momento, apenas um tropeção seria suficiente. O
humor dos soldados da SS não era algo previsível.
Esta permanente convivência com o estar ali ou, como o vizinho,
não estar mais ali, "fugir pela chaminé", consolidava um
silêncio mútuo entre todos sobre o assunto. Um silêncio
que cada um assumia após algumas semanas no campo e que fazia parte
do próprio ritual coletivo e diário de "pressentir" e não
mais perguntar a si mesmo se será o próximo, apenas aguardar.
Assistir um pôr do sol significava ter ganho mais um dia nesse relógio
ao contrário.
Dezenas de anos depois falar sobre este assunto é ainda uma
tarefa difícil para a grande maioria dos sobreviventes. Mesmo em
familia o assunto é tabu. O silêncio coletivo e compulsório
daqueles dias e anos, se arraigou à alma de cada um. Perpetuou-se
como as tatuagens com o número de prisioneiro na própria
carne .
Jerzy precisou de muitos e muitos anos para poder falar sobre sua história.
Seus relatos exigem longas pausas momentos em que ele interrompe de repente
uma frase, olha distante, pensativo e, alguns minutos depois retoma a conversação
onde terminou. Os olhos se tornam sempre úmidos e ele faz uso frequente
de um lenço tentando dominar sua emoção.
À pergunta, se sua história não seria uma versão
moderna de "Romeu e Julieta", o faz tornar novamente pensativo e distante.
Após um meio sorriso com os lábios fechados, ele responde
pausadamente: "- Nem mesmo as chaminés de Verona e Auschwitz possuem
algo em comum".
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* * * * *
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Leia ainda nosso encontro com Jerzy
Bielecki
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