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Introdução
1- O silêncio que grita
2- A última viagem
3- Nova York,  1983
4- Anatomia do terror
5- Montes humanos
 6-  Início de um amor
7-  Fugindo do inferno
8-  Final

Apaixonados em Auschwitz
Uma História de Amor no Inferno

Transporte
Deportação para Auschwitz

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2- A última viagem

Cyla Cybulska completou 19 anos naqueles idos de 1940 e tinha planos de estudar Farmácia. Filha de uma abastada familia de judeus, seu pai possuía um próspero moinho na cidade de Lomza, Polônia, empregando quase cem pessoas. As quatro crianças cresciam sob os cuidados de criadas que também ajudavam na formação dos mesmos.
O pai de Cyla não acreditou, no início, nas histórias e rumores que persistentemente chegavam aos ouvidos de todos.
À crescente insegurança e dúvidas da mãe ele sempre respondia convicto: " Isso não pode ser verdade. Os alemães formam um povo civilizado. Algo assim não acontece mais neste século".
Cyla recebeu uma educação, ainda para os dias de hoje, acurada. Desde criança teve aulas de piano, da mema forma que sua irmã. Os dois irmãos aprenderam a tocar violino. Os judeus europeus sempre tiveram um forte arraigamento musical que é fomentado na familia. Os Cybulskas tinham um bom nome na região, social e empresiarialmente. Uma vez por ano todos os funcionários eram reunidos, convidados na casa do patrão, faziam uma grande festa. Comemoravam juntos o sucesso da empresa ao lado da próspera familia.
O preconceito contra judeus não chegou à Polônia através dos alemães. Ele já existia muito antes da invasão nazista em 1939. Muitos judeus chegaram à própria Alemanha, tamanha ironia, originalmente fugindo da perseguição em outras regiões da Europa. Pogrom por exemplo, é uma palavra russa, que caracteriza bem ao tratamento dado aos judeus naquele país. Isso muito antes de Hitler chegar ao poder.
Em Lomza entretanto, se é que existia algum preconceito, ele vivia adormecido e ninguém, a não ser em uma ou outra piada esporádica em rodas de bar, possuía sentimentos anti-semitas declarados. A maioria nem se dava ao trabalho de investigar quem é quem, porquanto e por quê. Havia judeus ricos e pobres, não-judeus ricos e pobres, todos na mais completa harmonia do dia a dia, pelo menos aparentemente. Pelo menos até 1940.

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A Polônia, apesar de representar na Europa um dos países mais antigos, viveu poucos períodos de completa independência e autonomia. Sempre à mercê e ao capricho de mudanças políticas e guerras no conturbado continente, o país, no meio geográfico de tantos séculos de instabilidade, sempre tornava-se dependente ou governado pela força que estivesse por cima no momento. Foi através desta característica histórica que o catolicismo chegou e fincou os pés por lá. O polonês é ainda hoje o católico mais praticante do mundo. Uma parcela ínfima possui outra religião na Polônia.
Quando os nazistas e seus tanques iniciaram o percurso da fronteira até Varsóvia, foram festejados espontaneamente pelo povo em todas as localidades por onde marcharam. O gatilho mais trágico da História do século estava sendo apertado com intenso apoio popular naquele momento.
Aqueles dias de 1939 entretanto pouco mudaram de imediato a vida de Cyla e sua familia. Poucos se apercebiam do que estava para acontecer.
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Ao desembarcar em uma dia frio de janeiro, no inverno de 1943, em Auschwitz, Cyla e sua familia haviam perdido tudo que foi construído em anos de trabalho. O moinho desapropriado compulsoriamente junto com todas as posses, bens e direitos, cidadania, dignidade.
Cyla relata: "- Durante algum tempo continuei frequentando a escola normalmente. Depois veio a proibição de assistirmos as aulas junto com as outras alunas, todas católicas. Tivemos que ser separadas e por fim simplesmente nos proibiram toda e qualquer atividade escolar."  A propaganda anti-semita espraiou-se por todos os lugares e em todos os níveis. Acompanhando a propaganda seguiam as medidas oficiais. A pressão dos fascistas já intimadava o povo de entrar nas lojas cujos proprietários tivessem ascendência judaica. O boicote era orientado e dirigido pela própria Gestapo, que formava e estimulava grupos a fazer manifestações nas ruas, principalmente diante de lojas de judeus.
" -  A força psicológica da propaganda era tão intensa e abrangente, que muitas vezes eu me perguntava se eles, por algum motivo, não teriam razão para agir assim contra nós. Eu me indagava se não teria algo de ruim em mim que justificasse aquele ódio. Eu própria ficava insegura naquele desespero. Talvez houvesse sim algo terrivel em nós. Eu só não descobria o quê ", diz Cyla.
A deportação para Auschwitz selou o destino da familia para sempre. Amontoados em vagões de gado, sem janelas, sem água e comida, a familia segue rumo a um destino ignorado. "- Lembro minha mãe na penumbra do vagão, junta a nós, espremidos uns aos outros, chorar e em intervalos sempre repetir: - Eles vão nos matar, eles vão nos matar...".  Cyla continua: " - O múrmurio dentro do vagão, os soluços e gemidos, o rangido dos trilhos, os gritos desesperados de homens, mulheres e crianças ao mesmo tempo e durantes horas, o rumo desconhecido da viagem e o ar sufocante, me marcaram para sempre. Ainda hoje, dezenas de anos depois, estas cenas não abandonaram meus pensamentos e pesadelos. Foram os últimos momentos que passei com meus pais, minha irmã e meus irmãos, nossa última viagem juntos ".
***

Em 1943 a recepção aos recém-chegados em Auschwitz sofrera algumas mudanças operativas. Funcionando a todo vapor, o campo de concentração adquirira o cárater programado pelos nazistas de máquina de exterminação humana. Ainda na rampa de chegada dava-se o que se chamava no jargão nazista de "Selektion", o selecionamento das vítimas. Agora, além dos soldados da SS a gritar os comandos, "direita, esquerda!, em fila! ", acompanhavam-nos os médicos do campo de concentração, que examinavam as condições físicas dos prisioneiros. Já não havia mais espaço para abrigar a todos, como nos primeiros tempos, os melhores eram escolhidos, selecionados.
"Meus pais, meus irmãos e minha irmã ficaram na fila da esquerda, um alemão ordenou para que eu ficasse na fila da direita", lembra Cyla. "Minha mãe gritou meu nome e acenava me chamando desesperadamente. Eu saí da fila e corri para junto de minha familia. Um soldado bateu violentamente na minha cabeça, empurrando-me de volta para o outro lado. Acho que ele gostou do meu rosto...", continua ela, " depois constatei que aquele golpe salvou minha vida ".
Horas depois, já devidamente uniformizada de azul e branco, a cabeça raspada e alojada num dos setores do campo Cyla indaga uma prisioneira onde poderia estar sua familia. A mulher, sem responder, ergueu o olhar na direção da chaminé. O crematório já funcionava como destino final da morte em escala industrial.
Cyla não conseguiu dormir e chorou descontroladamente durante toda a noite.

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Introdução
1- O silêncio que grita
2- A última viagem
3- Nova York,  1983
4- Anatomia do terror
5- Montes humanos
 6-  Início de um amor
7-  Fugindo do inferno
8-  Final

Veja nosso encontro com Jerzy Bielecki

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