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Introdução
1- O silêncio que grita
2- A última viagem
3- Nova York,  1983
4- Anatomia do terror
5- Montes humanos
 6-  Início de um amor
7-  Fugindo do inferno
8-  Final
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Apaixonados em Auschwitz
Uma História de Amor no Inferno

.3- Nova York, 1983

A jovem imigrante polonesa vive de trabalhos como faxineira em residências e lojas do Brooklyn. Às sexta-feiras durante a tarde ela cuida da limpeza em uma pequena joalheria, onde também é encarregada de fazer pequenas compras. A velha senhora vive sozinha, há alguns anos viúva sempre bem humorada, porém um pouco recolhida em si, sem conversar tanto, como outras pessoas para quem a jovem faz os mesmos serviços. 
O assunto entre elas nunca passa de acontecimentos e fatos corriqueiros do dia a dia . Sobre o passado daquela senhora nunca tinham falado, até aquela tarde de junho de 1983. 

* * * * *

A ajudante fez como sempre as tarefas rotineiras e por fim preparou o café da tarde, que tomavam juntas após o encerramento do trabalho. 
Naquela tarde a velha senhora começou espontaneamente a falar do passado, que começava numa locali-
dade chamada Lomza, no norte da Polônia. 
Cyla Zacharowitz falou da infância feliz, da deportação da familia após a chegada dos nazistas, o destino que a vida reservou para ela, os pais, os irmãos Jacob, Nathan e a irmã Rebecca. Descreveu os últimos momentos juntos, quando sua familia seguiu para a câmara de gás. De repente ela desviou o olhar para a janela da pequena sala. Fez uma pequana pausa e, como num segredo contou: " - Sabe, eu já fui perdidamente apaixonada por um polonês, há muito tempo atrás..., foi ele quem me livrou da morte em Auschwitz ". 
Um silêncio de dezenas de anos era quebrado naquele momento. Os pensamentos rebuscavam o passado em detalhes. Cyla parecia estar com um leve tremor nos lábios. Parecia tensa mas segura:
" -  O que ele fez por mim eu jamais esquecerei. Eu o chamava de Jurek. Seu nome era Jerzy Bielecki. Nós nos conhecemos e nos apaixonamos no campo.  Ele se tornou para mim o único e tênue motivo, a única razão, que fazia o meu lado vivo resistir contra a parte desiludida e vencida, naquele mundo de Auschwitz ". 
Após uma curta pausa e o olhar surpreso da jovem, Cyla continou: 
" - Um dia ele chegou ao meu setor, vestindo um uniforme roubado de soldado da SS, deu ordens de me liberar para o acompanhar e, juntos, marchamos para fora de lá. Vagamos semanas pelos campos e bosques, escondidos dos comandos de busca. Um dia, nos fins de outubro de 1944, a proximidade do inverno e o risco da situação aumentaram o perigo de sermos capturados e nos obrigaram a uma separação temporária. Os russos avançavam, vindos do leste e a derrota dos alemães era uma questão de tempo. Logo nos juntaríamos novamente, para sempre. Aquela separação tática entretanto foi um erro. Desde então nunca mais o vi. A falta de um sinal de vida apos a derrota final dos nazistas, me convenceu de que ele havia sucumbido lutando na resistência. Pouco depois eu parti de onde estava. Tomei os caminhos que me fizeram chegar até aqui a Nova York ". 
Àquela altura a jovem polonesa muda e sobressaltada, observava perplexa aquela senhora e a história inacreditável. Do fundo de sua memória ela lembrou que conhecia algo remotamente parecido.
" - Senhora Zacharowitz, há alguns anos atrás, quando eu ainda me encontrava na Polônia, lembro que assisti uma reportagem  na TV, onde um homem contava uma experiência assim. Ele relatou como conseguiu salvar uma jovem judaica do campo de Auschwitz, fugindo com ela de uma forma muito parecida com a que a senhora acaba de contar. Não lembro com certeza entretanto, se o nome dela era Zacharowitz, como o seu ". 
Cyla sentiu um impacto e realmente foi tomada por um tremor. Com a voz agora insegura, ela entremeiou as palavras da jovem: 
" - Zacharowitz é meu nome de casada. Meu sobrenome, quando solteira, era Cybulska ". 
Os instantes que se seguiram àquela revelação carregaram novamente de nervosismo e suspense a vida de Cyla. Vieram quarenta e oito horas de suspense e aflição. Ao fim de dois dias de intensos e numerosos telefonemas, de busca incessante com a ajuda de parentes da jovem na Polônia, ela estava de posse de um número de telefone na cidade de Nowy Targ, no oeste doPaís ". 
Cyla concentrou-se, procurou controlar a emoção que a dominava e iniciou a discagem do número. 
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 * * * * *
.Em 1983 todo e qualquer telefonema internacional na Polônia passava pela central de Varsóvia. No dia 6 de Junho o telefone toca em uma residência em Nowy Targ: 
- Alô, aqui é da central telefonica de Varsóvia, ligação de Nova York para o senhor Bielecki ". 
- Alô, sim, sim. É ele! 
Do outro lado da linha, uma voz feminina soou nervosa: 
- Jurek! Jurek! É você? É você??

Logo após o fim da guerra Jerzy recebera a notícia de que Cyla havia morrido. Ela padecera na Suécia, como demonstrava a foto enviada, com ela deitada em um leito de hospital. Ele guadara aquela foto para sempre. A última e única lembrança que lhe restara. 
Agora estava Jerzy, estático e perplexo ao telefone, reconhecendo imediatamente aquela voz: 
- Cyla! Cyla! ...Sou eu sim, sou eu. Meus Deus, onde você está? De onde está telefonando? 
- De Nova York, Jurek!! 
Cyla começa a chorar compulsivamente. Trinta e nove anos depois, tantos momentos da vida ela recordara sozinha e em silêncio o passado. Os dias depois da fuga, o sono inquieto nos campos verdes, o calor do corpo de Jerzy nas noites frias e o escuro profundo que desnudava o céu. Ela jamais vira um céu com tantas estrelas como o daqueles dias. Todas as emoções pareciam adormecidos esperando aquele instante. Ela continuou: 
- Jurek, a senhora Czernik me assegurou que você havia morrido. Havia sido informada por membros da resistência. Resolvi por isso ir embora, Jurek. Todos estes anos eu nada esqueci. Tantos anos, tantos anos, Jurek... 
Jerzy aperta os olhos e enxuga as lágrimas. Aquele recanto de sua alma se reacende e a imagem de Cyla se personifica novamente, naquela voz que ele ouve. Por mais anos que tenham passado, ele revê aquela frágil figura a costurar sacos de trigo, anônima entre dezenas de outras, a cabeça semi-pelada, as mãos débeis e magras e aqueles olhos profundos, tristes porém vivos, que tanto o atraíram. Desde o primeiro minuto, a primeira vez que a vira, Jerzy se apaixonou. Entre todas as outras, Cyla se sobressaía para ele. Aquele primeiro e tímido e furtivo sorriso, separados por alguns metros de distância, ficara em sua memória, gra- vado para sempre. No centro do delírio nazista de superioridade racial, de liquidação sistemática e irracional de milhões de inocentes, nascia uma amor praticamente impossivel. Uma paixão cercada com o cheiro da morte. 
Jerzy jamais esquecera de Cyla, mas a fuga impossivel trouxe consigo também a separação, ele a perdera.

Seguindo seu destino pós-guerra, ele terminou os estudos, casou, tornou-se professor ginasial e pai de três filhos. O tempo ajudou a guardar em algum canto, no lado esquerdo do peito, adormecido, o amor desesperado e de final triste que havia avassalado o início de seus vinte anos.
" - A gente esbarra com o destino e tem que dar conta e curso à vida ", repete ele resignando-se.
Após meia hora no telefone e muitas lágrimas, Cyla promete viajar à Polônia logo que possivel, o mais rápido que puder. Ela pouco espera a hora de revê-lo. Ele também..

* * * * *..

Introdução
1- O silêncio que grita
2- A última viagem
3- Nova York,  1983
4- Anatomia do terror
5- Montes humanos
 6-  Início de um amor
7-  Fugindo do inferno
8-  Final

Veja nosso encontro com Jerzy Bielecki

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