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Uma História de Amor no Inferno
Tadeusz Srogi é uma raridade entre os sobreviventes de Auschwitz.
Uma exceção dentro da própria exceção.
À pergunta de como conseguiu sair vivo dali, ele não possui
até hoje uma resposta: - " Não tem explicação,
foi um acidente ter escapado com vida. Várias foram as vezes que
acertei as contas comigo mesmo e com Deus ".
Auschwitz não se resumia a um componente isolado, a um campo
de
concentração independente. Auschwitz fazia parte de um complexo
e era peça principal da estrutura de um projeto desenvolvido até
os últimos detalhes pelos nazistas. Nunca nos últimos séculos
e tantas guerras, a humanidade presenciou algo parecido, seja na forma,
no objetivo, nos meios, nos resultados e na organização com
o intuito único de destruir, liquidar seres humanos. O perfeccionismo
minucioso e elaborado. A perfeição do mal.
Sob a jurisdição de Auschwitz I estavam Birkenau (Auschwitz II), Monowitz (Auschwitz III) e outros próximos, menores como Gleiwitz, Kattowitz, Zator, apenas para citar alguns. Destinado originalmente a presos políticos poloneses, a localização central foi um dos motivos que o tornou em pouco tempo o principal e maior complexo de extermínio dos nazistas. A estrutura de funcionamento de Auschwitz obedecia critérios hierárquicos, fascistas que, tanto do lado da SS e Gestapo, como do lado das vítimas, contribuíam para evitar qualquer tipo de resistência. Davam suporte e reforçavam a resignação e controle total dos prisioneiros. Tadeusz descreve a hierarquia que sustentava aquele sistema, hierarquia esta que tanto podia favorecer como diminuir as chances de sobrevivência de cada um: "- Todos os prisioneiros eram divididos em grupos, os chamados "comandos" cujas tarefas, em regime de trabalho escravo, iam desde a limpeza do campo até ao "Comando Especial", encarregado dos trabalhos nas câmaras de gás e crematórios. Os grupos deste tipo eram chamados Comandos Internos. Os outros grupos denominados "Comandos Externos", prestavam trabalhos forçados às numerosas empresas e fábricas estabelecidas e que vieram a se estabelecer na região, com o objetivo de usufruir da mão de obra farta e barata (como a gigante do aço Krupp), ou em trabalhos de infra-estrutura como construção de ruas, es- tradas, esgotos, etc.." Dentro destes comandos havia por sua vez, uma hierarquia própria. Tadeusz continua: - " Cada grupo possuia uma espécie de capataz, escolhido pela SS entre os próprios prisioneiros. A grande maioria deles era de alemães com o triângulo verde. Os prisioneiros arianos, como eles denominavam, tinham nesse aspecto esta regalia. Eram os únicos também que não recebiam a tatuagem com o número. Os capatazes ou "capos" como eram chamados, devido a esta estranha relação e sob pressão para não cair em desgraça perante os nazistas, eram muitas vezes mais perversos que a própria SS. No fim desta escala hierárquica ficavam os judeus e os ciganos. Isso quando escapavam da "seleção", na rampa de chegada." * * * * * Ter uma qualificação profissional ajudava nas chances de prolongar a sobrevivência. Muitos prisioneiros devem sua vida ao fato de terem sido úteis. Entre eles estão médicos, engenheiros, cientistas, mesmo que fossem judeus. Tadeusz lembra: "Um médico famoso, judeu de Budapeste, Dr. Nikoli sobreviveu desta forma. Ele foi assistente de Mengele. Anos depois escreveu um livro, "Eu trabalhei com Mengele". Salvou assim a própria vida." Também profissionais de atividades menos intelectuais eram requisitados. Um bom serralheiro ou encanador tinha sua utilidade. Fazer parte dos comandos externos era algo cobiçado. Dependendo de qual. O contato com o lado de fora de Auschwitz fazia com que a circulação de informações sobre o que acontecia nos setores anexos, notícias e recados entre os prisioneiros fosse possivel, como também aumentava a possibilidade de se inteirar sobre a situação da guerra no momento. Era além disso uma forma mais provável de se conseguir até mesmo uma porção extra e clandestina de comida, fundamental para, no mínimo, manter a saúde ao ponto de se escapar de uma das seleções que periodicamente eram feitas dentro do campo. Os prisioneiros armaram dessa forma uma eficiente rede de informações e auto-ajuda. - " Nós poloneses tinhamos uma ligeira vantagem por estarmos em nosso próprio país ", diz Tadeusz, " a rede interna de resistência dependia muito de nós. Havia contudo desvios que muito prejudicavam, como roubos entre os próprios prisioneiros, até de sapatos, e subornos para alcançar privilégios. Nisso até a própria SS estava envolvida ". O mais fatal dos comandos era o chamado "Comando Especial". Sempre composto de judeus, este grupo era separado dos demais, isolado completamente. Tinha a incumbência de cuidar e fazer funcionar as câmaras de gás, os crematórios e as valas abertas de incineração dos cadáveres, quando os crematórios passaram a não mais acompanhar o ritmo das câmaras. O isolamento era para garantir o segredo deste procedimento, que os nazistas impunham como segredo de Estado. Periodicamente os componentes deste grupo eram substituídos. O destino após ter servido a este comando era a morte, sem atalhos. Este é o motivo que dava a este grupo o codinome entre os prisioneiros de "Comando de Viagem ao Céu". Tadeusz lembra um episódio em outubro de 1944, quando o "Comando Especial" se rebelou e, ciente do destino que os reservava, amotinou-se contra os algozes da SS: " Provocaram uma enorme rebelião. Incendiaram instalações e os bombeiros e soldados corriam como loucos. Foram por fim dominados e impiedosamente executados. Um mês após, com a aproximação dos russos pelo leste, as câmaras foram desativadas e pouco depois destruidas pela SS. Era fim de novembro de 1944." Tadeusz sabia o que significava tentar fugir do Campo. Ele duvidava muito do êxito de Jerzy, com seus planos de fuga com Cyla. Sua ajuda foi entretanto imprescindível para o êxito da empreitada. Após sua chegada a Auschwitz os caminhos dele e Jerzy se separariam até um dia em abril de 1943. Desde os dias em Tarnow e deportação para o campo, era a primeira vez que se reviam. . |
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Veja nosso encontro com Jerzy Bielecki
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