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Introdução
1- O silêncio que grita
2- A última viagem
3- Nova York,  1983
4- Anatomia do terror
5- Montes humanos
 6-  Início de um amor
7-  Fugindo do inferno
8-  Final
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.Apaixonados em Auschwitz
Uma História de Amor no Inferno

6- Início de um amor

Jerzy atravessou o enorme portal que dava acesso às dependências e escritórios do moinho de Auschwitz. 
Era seu primeiro dia de trabalho ali. O moinho processava  grãos, resultado das atividades agrárias do campo. Plantação, colheita, moagem, ensacamento e transporte, toda a produção era baseada no trabalho dos prisioneiros. O escritório cuidava dos detalhes administrativos, cálculos, controle geral, logística, enfim todo o processo até a saída para o destino final do que era produzido. 
A área onde eram preparados e alinhavados os sacos para conter o trigo era completamente ocupada por mulheres. Essa área era ampla, repleta de mesas de trabalho, cadeiras, máquinas e permanentemente movi- mentada. Separados por um corredor com algumas portas, se localizavam a contabilidade e o almoxarifado. 
Para chegar ao seu novo posto, Jerzy percorria obrigatoriamente a enorme sala, que pertencia também aos domínios de sua rotina diária, na nova tarefa. Ele percebeu de imediato que só mulheres trabalhavam ali. Eram algumas dezenas de prisioneiras, algumas jovens, outras mais velhas e cujos semblantes deixavam à mostra as marcas peculiares de abatimento e tristeza que ele conhecia. Ao caminhar admirado com o ambiente, sentiu seu olhar parar de repente, ao cruzar com os olhos de Cyla. Ele não lembra, se ele próprio chegou também a  parar, se diminuiu o passo ou se continuou andando normalmente. Ele apenas relembra que seus olhos se fixaram nos dela, como presos por um magnetismo. Os olhos fundos e as pálpebras com manchas escuras e lívidas de Cyla o invadiram, como se desnudassem sua alma e compartilhassem seus segredos. Era como se trocassem mensagens cifradas que nem ele próprio entendia. Algo dentro dele, as traduziam e as transmitiam a todo o seu corpo. 
" Aquele momento me assaltou de forma completamente inesperada. Foi como uma hipnose relâmpago. Como se Cyla estivesse ali me esperando há tempos, sem que eu soubesse. Naquele instante seus olhos me contaram daquela espera e igualmente de todo seu sofrimento. Mas além disso, afora os momentos de dor acumulados, estava naquele olhar uma atração inexplicável que me desguarnecia de qualquer defesa, e me impelia sem resistência e sem temor. Dali em diante ela tomou conta de meus pensamentos ", relembra ele. 
Com Cyla ocorreu o mesmo: " Ao passar e olhar para mim, me senti como que sendo puxada por ele daquela massa triste e anônima. Alguma coisa mudou dentro de mim, me estremeceu e me dominou de forma radical ", Cyla diz.  Jerzy sorriu tímido, Cyla correspondeu e o acompanhou com o olhar. 
Sem que ninguém ali imaginasse, fugindo à razão e à lógica, nascia um amor inesperado e espontâneo naquele instante. Jerzy e Cyla estavam apaixonados. 
Poucos dias depois eles já conversavam. A paixão crescia alheia a tudo aquilo ao redor. Ignorava a penúria de ambos e dos outros,  ignorava as necessidades e sofrimentos, a maldade dos criminosos. O amor entre os dois ignorou a dor, o perigo e o destino. Ignorou Auschwitz.
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.Aos poucos as companheiras de trabalho de Cyla foram percebendo a forte atração entre eles. Nasceu assim entre elas uma solidariedade, quase compaixão para com os dois. 
É um engano imaginar que, em determinadas situações, o ser humano perde a relação com determinados sentimentos. Aos poucos foi se formando uma aliança cúmplice que tomou conta de todos os prisioneiros do comando, da área de Cyla ao escritório de Jerzy. 
Primeiro Cyla passou a executar suas tarefas na posição mais próxima ao corredor que conduzia à sala em que ele trabalhava. Para isso uma companheira cedeu o lugar. Depois, nos momentos propícios, pelo menos uma vez por dia, quando os "capos" se locomoviam por outros setores, formavam um vigília que, funcio- nando por sinais e tossidos, mantinha sob controle visual todas as entradas do recinto e se transformava numa guarda segura permitindo Cyla ir, dissimuladamente, à sala de Jerzy, onde podiam ficar a sós por bons e  eternos minutos. 
Neste tempo os dois se beijavam e se afagavam carinhosamente. Jerzy apertava Cyla ao seu corpo, sentia sua figura frágil o abraçando, descobria cada vez mais quanto a amava e o que Cyla passara a significar em sua vida. 
Cyla por sua vez, encontrara um motivo para continuar se agarrando à vida. Nada mais restara a ela, que a fugidia felicidade de sentir o calor protetor de Jerzy  a resguardando, ainda que por frações de tempo, de todo o inferno que se tornara sua vida. Ela conseguia dormir à noite, tendo uma ponta de felicidade que a fazia ansiosa pelo dia seguinte. Era uma escrava, sem direitos e sem perspectivas, mas ela queria continuar vivendo, ela tinha Jerzy. 
Ele percebia todavia a fraqueza e debilidade acentuadas que a possuiam. Notava, quando ela pressionava a cabeça no seu peito, que lágrimas vindas de dentro da alma, desciam dos olhos profundos de Cyla. 
Uma angústia começou a inundá-lo. A idéia de logo perdê-la, o mais leve pressentimento de uma repentina separação o torturavam, não deixando-o mais em paz. Para ficarem juntos só haveria uma saída, a fuga,  e Jerzy sabia disso. Era preciso achar um caminho, fosse como fosse. Suas chances de sobreviver, ainda que não tão grandes, eram com segurança maiores que as de Cyla. Além da fragilidade e esgotamento, o fato de ser  judia, fazia dela uma candidata  potencial  à câmara de gás. Jerzy presenciara a que ponto a engrenagem de eliminação havia chegado. .
* * * * * 
.1943 foi um ano decisivo para os aliados. O aparelho nazista começava a mostrar o quanto era vulnerável e sua máquina de propaganda já enganava o próprio povo alemão, declarando vitória final enquanto a derrota se aproximava. O exército de Hitler já havia sido encurralado em Estalingrado, capitulava nas frentes do leste e, em 1944, o exército vermelho avançava firme na direção do ocidente. Em contrapartida parecia que esses resultados faziam multiplicar o grau de perversidade do regime. Entre maio e julho de 1944 são deportados 440.000 judeus húngaros para Auschwitz. A grande maioria deles foi, imediatamente após o desembarque conduzida para as câmaras de gás. Já sequer importava o estado de saúde, as aptidões ou potenciais dos recém-chegados. A ordem era câmara de gás sem atalhos e num ritmo jamais imaginado.
Na mesma medida que os alemães assassinam, aumenta o desespero de Jerzy. 
Nesses dias ele conversa frequentemente com Tadeusz, seu amigo dos primeiros dias de prisão. As notícias de que os russos cada vez mais se aproximam fazem uma esperança vacilante se espalhar pelo campo. O amigo nota contudo o estado de tensão, a angústia que se abate sobre Jerzy. Ele conhece também os motivos. 
Jerzy  começa sozinho a dar contornos a um plano que vem elaborando sozinho e decide pedir a ajuda fundamental do amigo: 
- Tadeusz, eu quero perguntar algo. Eu sei o que isso significa e, se sua resposta for afirmativa, eu agradeço para sempre. Sendo negativa não precisa se preocupar, eu entendo e continuamos amigos da mesma forma.
- O que é? O que você tem?, perguntou o amigo desconfiado. 
- Tadeusz, eu preciso de um uniforme completo da SS..., continua Jerzy. 
- Como? Para que? O que você pretende fazer ?
- É para mim Filip, não faça mais perguntas.
- Você sabe que eles nos executariam sem vacilar. Você planeja fugir com Cyla, não é verdade? Diga que é isso."
- Eu tenho que tentar. As chances de Cyla sobreviver são cada vez menores. Você sabe disso, Tadeusz.

Tadeusz acalma o amigo e assegura que tudo fará para ajudar. Ele sabe que pode pagar com a vida, se surpreendido, mas garante o mais rápido possivel efetuar o prometido. 
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Introdução
1- O silêncio que grita
2- A última viagem
3- Nova York,  1983
4- Anatomia do terror
5- Montes humanos
 6-  Início de um amor
7-  Fugindo do inferno
8-  Final
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.Veja nosso encontro com Jerzy Bielecki

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