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Uma História de Amor no Inferno
Apesar de saber que, se flagrados, tanto ele como Jerzy e Cyla estavam
liquidados, Tadeusz decidiu ajudar o amigo e pressentia que o plano tinha
tudo para dar certo. Ele aconselhou Jerzy a pensar imediatamente num lugar
para esconder o uniforme.
* * * * * O documento era verde e continha os dados do cabo da SS Helmut Stehler. Com isso completava-se o necessário para a fuga, exceto uma arma. Por precaução Jerzy pediu a outro companheiro de infortúnio, um especialista em trabalhos gráficos, para adulterar o nome Stehler, substituindo-o por Steiner, evitando assim possiveis imprevistos, como encontrar algum conhecido do portador verdadeiro do passe e também para justificar seu alemão com acento, caso fosse controlado, como sendo de um alemão da região da Ucrânia. Ele cuida também de marcar um encontro rápido e furtivo
com Cyla e relata para ela todos os preparativos. Nos próximos dias
eles fugiriam dali. Ele não pode entretanto dizer exatamente quando,
mas reitera sua segurança pedindo para ela se preparar.
Um capo o atendeu perguntando o que desejava e uma soldada feminina da SS, responsável pelo setor também se apresenta. Jerzy se comporta como desde 1940 aprendera: " - Heil Hitler! venho buscar a prisioneira Cyla Cybulska! ". A mulher da SS despachou um ajudante imedia- tamente e Jerzy esperou, tomado de calafrios. Os óculos começam a ficar embaciados e ele os retirou para limpar com o lenço. Alguns minutos e Cyla aparece na sala. Jerzy percebe que ela está completamente cambaleante e temeu que ela caisse sem forças. Ele gritou de- cidido, para que o impacto a touxesse a si ou a compenetrasse: " Vamos, mais rápido! Mais rápido! ". Os dois iniciam o trajeto para o portão de saída, Jerzy à frente, Cyla cabisbaixa e perplexa atrás. À direita do caminho um capo começou exageradamente e demonstrativo a gritar com os prisioneiros, ao ver Jerzy passar com a prisioneira. Logo depois Jerzy é tomado por um susto que o fez gelar completamente. Ele avistou Hermann, um velho conhecido, capo do comando de jardinagem ao qual pertencera. Hermann cruza o caminho dos dois, gesticula, observa Cyla, mas não o reconhece. Nem por isso ele se sentiu aliviado. Restavam pouco mais de cinquenta metros para o momento decisivo, o portal de saída de Auschwitz. Cada segundo parecia se transformar em eternidade. Às pernas pareciam estar presos blocos de chumbo, que exigem para os movimentos um esforço torturante. Jerzy e Cyla entram quase em estado de transe e, como ele notou, todos os nervos do corpo iniciaram uma vibração jamais sentida. Um sibilar incontrolável. Eles já avistavam portão e guarita. O sentinela levantou-se, avançou um passo, ajustou o cinto e o casaco da farda, cruzou os braços para trás e esperou a aproximação dos dois. Restava a distância de uns dez metros a ser vencida. Jerzy enfiou a mão nos bolsos à procura do passe de trânsito. O uniforme era novo e ele teve dificuldades. Cyla aparentava estar ausente de todo e qualquer detalhe, ela apenas seguia, como inconsciente, a sombra de Jerzy no chão. Tudo o mais estava fora do raio de seus sentidos: " Eu perdi toda e qualquer capacidade de raciocinar. Como entorpecida, seguia olhando apenas a sombra deformada de Jerzy à minha frente. Só assim consegui vencer aquele pânico descomunal ". Jerzy sacou finalmente o passe do bolso, saudou o sentinela, apresentou o documento e falou no jargão de praxe: " Um vírgula um, de volta a Budy ". Isso significava um prisioneiro, na guarda de um soldado, voltan- do ao posto de origem. Budy era uma unidade agrária pertencente ao complexo do campo, nas imediações do mesmo. O sentinela fitou primeiro Jerzy, tomou o documento de suas mãos e examinou-o. Em seguida observou Cyla atentamente, voltou o olhar para Jerzy e de novo para Cyla. Jerzy sentiu uma leve insegurança no sentinela. Ou ele suspeitva de algo. Cyla permaneceu imóvel. Jerzy decidiu demonstrar impaciência, movimentando os pés no mesmo lugar e olhando para o relógio. O sentinela empurrou finalmente o portão, devolveu o passe, abriu passagem para os dois e disse: " Obrigado, Heil Hitler! " Os dois atravessaram a passagem e Jerzy imaginou se o sentinela descobria naquele instante a farsa. Ele continuou andando e esperando a qualquer momento o grito: " Parem! Nenhum movimento! " Talvez nem isso. Provavelmente o soldado iria atirar sem aviso prévio, porque com certeza pensaria que ele estivesse armado de verdade. Jerzy olhou ligeiramente para o lado esquerdo procurando observar pelos lados o comportamento do soldado. Ele sentiu um estremecer total no corpo. O sentinela contudo já havia voltado a seu lugar, sentando novamente na guarita. Seriam entre três e quinze e três e vinte da tarde. O sol de julho brilhava sobre Auschwitz, contrastando com aquele mundo sombrio de seres esqueléticos e almas doentias. Aquele mundo se tornaria um fantasma de horror para o resto da humanidade e para sempre mas, além disso, ele se tornaria uma marca profunda, uma ferida incurável para quem o viveu, ou melhor, sobreviveu. Jerzy e Cyla continuaram a marcha. Andaram um, dois quilômetros e nada aconteceu. Pouco depois descobriram uma trilha saindo da estrada e seguiram por ela. Em meio a arbustos e árvores, que ofereciam proteção, eles se distanciaram cada vez mais. Por trás do verde à frente está as margens do rio Sola. Numa clareira que passaram, Cyla parou um pouco e, admirada, gritou para Jerzy: " Jurek, olha ali, quantas flores Jurek!! ". Fazia tempo que ela havia visto flores assim. Eles se escondiam de todo e qualquer ruído. Ao anoitecer, por volta das oito horas, metidos pelos bosques eles ouviram então as sirenes de Auschwitz ecoando intermitentes e distantes. A fuga fora descoberta. A partir de dali eles estariam sendo procurados. Jerzy e Cyla atravessaram ainda durante a noite o rio Sola. Andaram por toda a noite para ganhar cada vez mais distância e evitar assim uma captura. Somente pela manhã do dia seguinte fizeram uma pausa e ficaram escondidos. A Gestapo já alarmava todos os postos da região em circular. Os prisioneiros poloneses Jerzy Bielecki, ta- tuado no antebraço esquerdo com o número 243 e Cyla Cibulska com número 29558, haviam fugido de Auschwitz. Estava ordenada a procura e consequente captura dos dois. Os responsaveis deviam comunicar imediatamente o comando central do campo, em caso de êxito, para receber novas ordens. Nove noites os dois caminharam pelos campos e bosques, nos sentidos sul, leste, norte. Durante o dia permaneciam escondidos. Cyla começou a ceder ao esgotamento. Ela pediu para Jerzy continuar sem ela. Ele implorou para que ela não se deixasse vencer. Algumas vezes a carregou pelos campos, sem rumo. Uma vez a protegeu de uma patrulha polonesa que passou pelas imediações atirando ao léu, com certeza procurando os foragidos. Jerzy percebeu o perigo cada vez maior. Ele precisava encontrar uma solução e decidir antes que fosse tarde demais. A morte continuava, apesar da fuga, circundando incansável o caminho dos dois. . |
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