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Introdução
1- O silêncio que grita
2- A última viagem
3- Nova York,  1983
4- Anatomia do terror
5- Montes humanos
 6-  Início de um amor
7-  Fugindo do inferno
8-  Final
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Apaixonados em Auschwitz
Uma História de Amor no Inferno
Cyla
Cyla por volta de 1946 
7- Fugindo do inferno
(penúltima parte)
Jerzy
 Jerzy por volta de 1946

Apesar de saber que, se flagrados, tanto ele como Jerzy e Cyla estavam liquidados, Tadeusz decidiu ajudar o amigo e pressentia que o plano tinha tudo para dar certo. Ele aconselhou Jerzy a pensar imediatamente num lugar para esconder o uniforme. 
Alguns dias após isso Jerzy encontra novamente o amigo, bastante nervoso e, como ele percebeu, tremendo da cabeça aos pés. Ele trazia um casaco da SS escondido por baixo da roupa. Os dois seguiram para o banheiro coletivo, onde Tadeusz alvoroçadamente o entregou para Jerzy. Este por sua vez havia achado um esconderijo, no sótão do celeiro de grãos, onde descobrira uma tábua solta no forro do teto. Desta forma Tadeusz foi entregando para o amigo, parte por parte, todas as peças componentes da vestimenta da SS. 
Cyla desconhecia ainda àquela altura os planos de Jerzy. Eles conversam sobre o que tem acontecido em Birkenau, onde as câmaras de gás funcionam horas a fio todos os dias. Ela teme que logo chegue a vez dos dois. Ele a conforta e responde: "- Nós vamos sobreviver. Eu vou te tirar daqui." 
Nesses dias surge no campo o caso de um soldado da SS, que estava tendo uma relação com uma prisioneira judia. Pomplum, chefe do comando de Jerzy, assombrado com as consequências, se algo assim ocorresse no seu setor, troca as mulheres por judeus holandeses, que passam a costurar os sacos de trigo. 
Isso foi um golpe nos planos de Jerzy, que desconhecia agora o paradeiro de Cyla. Desesperado ele aciona a rede de informações e, alguns dias depois, recebe a notícia consoladora. Cyla continuava viva e estava trabalhando agora na alfaiataria de Auschwitz. Ele precisava agora apressar os fatos. Executar seu plano sem perder mais tempo, mesmo aumentando os riscos. 

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A segurança nazista incluía um passe de trânsito que permitia aos soldados se locomover e, além de conter os dados pessoais do portador, mudava de cor periodicamente. Eram brancos, amarelos, azuis e verdes.  Este documento, importante para a fuga, foi finalmente entregue por Tadeusz, proveniente dos bolsos de um das dezenas de uniformes entregues no depósito para reparos. Também os nazistas sempre esqueciam algo nos bolsos de suas roupas. Tadeusz desta vez aproveitara-se da pequena distração e não o devolvera como de costume. 
O documento era verde e continha os dados do cabo da SS Helmut Stehler. Com isso completava-se o necessário para a fuga, exceto uma arma. Por precaução Jerzy pediu a outro companheiro de infortúnio, um especialista em trabalhos gráficos,  para adulterar o nome Stehler, substituindo-o por Steiner, evitando assim possiveis imprevistos, como encontrar algum conhecido do portador verdadeiro do passe e também para justificar seu alemão com acento, caso fosse controlado, como sendo de um alemão da região da Ucrânia. 

Ele cuida também de marcar um encontro rápido e furtivo com Cyla e relata para ela todos os preparativos. Nos próximos dias eles fugiriam dali. Ele não pode entretanto dizer exatamente quando, mas reitera sua segurança pedindo para ela se preparar. 
Pouco mais de uma semana após, Jerzy constatou que soldados alemães passaram a apresentar o passe de cor verde. Chegara o momento. Não existia mais razão para esperar. Ele marca outro encontro com Cyla e diz: - " Sexta-feira próxima, 21 de julho, às três horas da tarde, um soldado da SS vai te buscar para interrogatório. Este homem sou eu. Esteja preparada. Acontecendo alguma coisa ou se eu não apareçer, sai- bas que foi o meu fim. Procures sobreviver e nunca diga que sabia de algo a respeito, se perguntada. Dando tudo certo porém, estaremos livres ". 
As noites até a sexta-feira, foram noites de insônia para Jerzy e Cyla. A ansiedade misturada ao medo fazia com que nem o cansaço, os deixasse sucumbir ao sono. A impaciência os dominava chegando a paralisá-los. As horas e minutos anteriores à hora marcada para a fuga, os levou quase ao esturpor.
Às duas horas e quinze minutos da sexta-feira, Jerzy vai ao sentinela da SS e diz que irá ao celeiro conferir e contabilizar o estoque. 
Ele começou a suar mais que o normal, embora o calor fosse grande naquele dia quente de verão. Ele procurou pausar a respiração, entrou no celeiro, certificou-se de que estava sozinho, subiu ofegante e tirou o pacote do esconderijo. Suas mãos tremiam descontroladamente. Ele vestiu-se e quase não acertou dar o nó perfeito dos nazistas nas botas. Ele tentou em vão, exercer o controle sobre o corpo. Colocou o cinto, enche o porta-armas com alguns pedaços de ferro para apresentar volume e por fim a boina da SS com o símbolo da caveira. Ao ficar pronto, deu alguns passos, bateu com os calcanhares entre si, exercitando o simbolismo fascista de continência, colocou um par de óculos escuros que há muito guardava, para melhor disfarce e se olhou num caco de espelho que conservara para o momento. Ele tomou um susto ao se ver refletido no espelho: "- Eu não me vi. Eu vi um soldado da SS ". 
Jerzy enxugou o suor do rosto com um lenço, desceu, abriu a porta e se pôs a caminho. Aqueles seriam os mais dramáticos instantes de sua existência. 
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.Ele andou alguns blocos despercebido, quando avistou dois soldados da SS a mais ou menos vinte metros de distância, junto a um grupo de prisioneiros que trabalhava. Nota os dois acenarem para ele, tirando a boina da cabeça e, tomado de um sobressalto, constata que eles o cumprimentam. Isso o faz seguro su- ficiente para seguir em frente. Ele assume o ego de um nazista, como que subitamente drogado, limpa mais uma vez o suor do rosto e segue incontinenti, chegando à alfaiataria do campo. 
Um capo o atendeu perguntando o que desejava e uma soldada feminina da SS, responsável pelo setor também se apresenta. Jerzy se comporta como desde 1940 aprendera: 
" - Heil Hitler!  venho buscar a prisioneira Cyla Cybulska! ". A mulher da SS despachou um ajudante imedia- tamente e Jerzy esperou, tomado de calafrios. Os óculos começam a ficar embaciados e ele os retirou para limpar com o lenço. Alguns minutos e Cyla aparece na sala. 
Jerzy percebe que ela está completamente cambaleante e temeu que ela caisse sem forças. Ele gritou de- cidido, para que o impacto a touxesse a si ou a compenetrasse: " Vamos, mais rápido! Mais rápido! ". 
Os dois iniciam o trajeto para o portão de saída, Jerzy à frente, Cyla cabisbaixa e perplexa atrás. À direita do caminho um capo começou exageradamente  e demonstrativo a gritar com os prisioneiros, ao ver Jerzy passar com a prisioneira. Logo depois Jerzy é tomado por um susto que o fez gelar completamente. Ele avistou Hermann, um velho conhecido, capo  do comando de jardinagem ao qual pertencera. Hermann cruza o caminho dos dois, gesticula, observa Cyla,  mas não o reconhece. Nem por isso ele se sentiu aliviado. Restavam pouco mais de cinquenta metros para o momento decisivo, o portal de saída de Auschwitz. Cada segundo parecia se transformar em eternidade. Às pernas pareciam estar presos blocos de chumbo, que exigem para os movimentos um esforço torturante. Jerzy e Cyla entram quase em estado de transe e, como ele notou, todos os nervos do corpo iniciaram uma vibração jamais sentida. Um sibilar incontrolável. 
Eles já avistavam  portão e guarita. O sentinela levantou-se, avançou um passo, ajustou o cinto e o casaco da farda, cruzou os braços para trás e esperou a aproximação dos dois. Restava a distância de uns dez metros a ser vencida.  Jerzy enfiou a mão nos bolsos à procura do passe de trânsito. O uniforme era novo e ele teve dificuldades. Cyla aparentava estar ausente de todo e qualquer detalhe, ela apenas seguia, como inconsciente, a sombra de Jerzy no chão. Tudo o mais estava fora do raio de seus sentidos: " Eu perdi toda e qualquer capacidade de raciocinar. Como entorpecida, seguia olhando apenas a sombra deformada de Jerzy à minha frente. Só assim consegui vencer aquele pânico descomunal ". 
Jerzy sacou finalmente o passe do bolso, saudou o sentinela, apresentou o documento e falou no jargão de praxe: " Um vírgula um, de volta a Budy ".  Isso significava um prisioneiro, na guarda de um soldado, voltan- do ao posto de origem. Budy era uma unidade agrária pertencente ao complexo do campo, nas imediações do mesmo. 
O sentinela fitou primeiro Jerzy, tomou o documento de suas mãos e examinou-o. Em seguida observou Cyla atentamente, voltou o olhar para Jerzy e de novo para Cyla. 
Jerzy sentiu uma leve insegurança no sentinela. Ou ele suspeitva de algo. Cyla permaneceu imóvel. Jerzy decidiu demonstrar impaciência, movimentando os pés no mesmo lugar e olhando para o relógio. O sentinela empurrou finalmente o portão, devolveu o passe, abriu passagem para os dois e disse: " Obrigado, Heil Hitler! " 
Os dois atravessaram a passagem e Jerzy imaginou se o sentinela descobria naquele instante a farsa. Ele continuou andando e esperando a qualquer momento o grito: " Parem! Nenhum movimento! "  Talvez nem isso. Provavelmente o soldado iria atirar sem aviso prévio, porque com certeza pensaria que ele estivesse armado de verdade. Jerzy olhou ligeiramente para o lado esquerdo procurando observar pelos lados o comportamento do soldado. Ele sentiu um estremecer total no corpo. O sentinela contudo já havia voltado a seu lugar, sentando novamente na guarita. 
Seriam entre três e quinze e três e vinte da tarde. O sol de julho brilhava sobre Auschwitz, contrastando com aquele mundo sombrio de seres esqueléticos e almas doentias. Aquele mundo se tornaria um fantasma de horror para o resto da humanidade e para sempre mas, além disso, ele se tornaria uma marca profunda, uma ferida incurável para quem o viveu, ou melhor, sobreviveu. 
Jerzy e Cyla continuaram a marcha. Andaram um, dois quilômetros e nada aconteceu. Pouco depois descobriram uma trilha saindo da estrada e seguiram por ela. Em meio a arbustos e árvores, que ofereciam proteção, eles se distanciaram cada vez mais. Por trás do verde à frente está as margens do rio Sola. Numa clareira que passaram, Cyla parou um pouco e, admirada, gritou para Jerzy: " Jurek, olha ali, quantas flores Jurek!! ". Fazia tempo que ela havia visto flores assim. 
Eles se escondiam de todo e qualquer ruído. Ao anoitecer, por volta das oito horas, metidos pelos bosques eles ouviram então as sirenes de Auschwitz ecoando intermitentes e distantes. A fuga fora descoberta. A partir de dali eles estariam sendo procurados. Jerzy e Cyla atravessaram ainda durante a noite o rio Sola. Andaram por toda a noite para ganhar cada vez mais distância e evitar assim uma captura. Somente pela manhã do dia seguinte fizeram uma pausa e ficaram escondidos. 
A Gestapo já alarmava todos os postos da região em circular. Os prisioneiros poloneses Jerzy Bielecki, ta- tuado no antebraço esquerdo com o número 243 e Cyla Cibulska com número 29558, haviam fugido de Auschwitz. Estava ordenada a procura e consequente captura dos dois. Os responsaveis deviam comunicar 
imediatamente o comando central do campo, em caso de êxito, para receber novas ordens. 
Nove noites os dois caminharam pelos campos e bosques, nos sentidos sul, leste, norte. Durante o dia permaneciam escondidos. Cyla começou a ceder ao esgotamento. Ela pediu para Jerzy continuar sem ela. Ele implorou para que ela não se deixasse vencer. Algumas vezes a carregou pelos campos, sem rumo. Uma vez a protegeu de uma patrulha polonesa que passou pelas imediações atirando ao léu, com certeza procurando os foragidos. 
Jerzy percebeu o perigo cada vez maior. Ele precisava encontrar uma solução e decidir antes que fosse tarde demais. A morte continuava, apesar da fuga, circundando incansável o caminho dos dois. 
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2- A última viagem
3- Nova York,  1983
4- Anatomia do terror
5- Montes humanos
 6-  Início de um amor
7-  Fugindo do inferno
8-  Final
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Veja nosso encontro com Jerzy Bielecki

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