Apaixonados
em Auschwitz
Uma História
de Amor no Inferno
.
8- Separados pelo destino (última parte)
Jerzy precisou tomar a decisão de pedir ajuda. A situação
ficaria insustentável de qualquer forma, quando o inverno começasse
a dar mostras de sua presença em dois ou três meses. Mesmo
antes disso as noites já estariam frias o suficiente para castigá-los.
Isso se os dois superassem o que, com certeza, ainda estaria por vir. A
fraqueza de Cyla era mais que acentuada e os comandos de busca podiam surpreendê-los
a qualquer momento. Quilômetros a leste Jerzy possuia um tio, onde
poderiam se refugiar.
Ele pediu socorro a fazendeiros da região onde encontravam-se.
Jerzy, apresentando Cyla como sua irmã relatou que fugiram
do regime de trabalho escravo alemão e estavam a caminho da casa
de parentes que os protegeriam.
A gente simples polonesa foi mais solidária que esperavam, e
passou a guiá-los em segurança à casa do tio
de Jerzy, onde eles estariam a salvo por um bom tempo.
Ao finalmemnte chegar ao destino, dias depois, Jerzy agradeceu e perguntou
como poderia pagar a ajuda. As pessoas negaram aceitar qualquer compensação
e reafirmaram não poder receber algo em troca, por ter ajudado foragidos
de Auschwitz. Mais uma vez a solidariedade sem interesse ajudou Jerzy
e Cyla.
Na casa do tio eles encontraram a segurança necessária
mas, em contrapartida, iniciou-se uma quase que permanente chegada de pessoas
para visitá-los. Uma boa parte delas era de parentes de prisioneiros
de Auschwitz, que procuravam notícias sobre o paradeiro do seus.
Portanto uma exposição mais que arriscada para os dois.
O exército vermelho se aproximava cada vez mais. Nas florestas
e campos a resistência armada polonesa não dava tréguas
aos alemães. Jerzy entretanto sabia que os rumores e as visitas
constantes representavam um perigo. Sua mãe, católica fervorosa
e conservadora, passou também a visitá-los. Ela não
via com bons olhos o fato de seu filho estar com uma judia. Ainda que Cyla
dissimulasse, ela se sentia discriminada e a situação pouco
ajudava. Ela negava ser judia.
Por muito tempo ainda em sua vida, Cyla iria esconder das pessoas suas
origens judaicas. Milhares de outros sobreviventes adotaram o mesmo comportamento.
A mãe de Jerzy aumentou as visitas e houve brigas. O falatório
em torno dos dois tirou a paz e a segurança e os fez decidir por
uma separação temporária. Jerzy juntou-se à
resistência e Cyla é levada para uma pequena fazenda afastada,
onde um casal sem filhos a recebeu calorosamente e onde ela teria finalmente
paz. Os Czernik eram pobres mas boas pessoas. Eles praticamente adotaram
Cyla, que passou a chamar Genowefa Czernik de "tia". Jerzy a visitava sempre
que podia e dormia com ela na estreita cama de tábuas. Eles fazem
planos e sonham do futuro juntos.
Chegou o inverno. Os contatos ficaram mais difíceis. Os movimentos
de Jerzy entre a guerrilha da resistência e a pequena fazenda tornaram-se
impossiveis. Ele se utilizava do sistema de informação da
própria resistência para mandar recados para os Czernik e
Cyla, mas não obtia resposta.
No dia 3 de janeiro de 1945 o exército vermelho conquista a
localidade de Gruszów, onde Cyla e os Czernik viviam.
Jerzy continua sem poder se movimentar, encurralado e escondido com
camaradas da resistência, esperando a própria libertação.
Cyla podia andar agora pelas ruas sem medo. Ela esperou triste por
notícias de Jerzy e, certa de que a guerra havia acabado para todos,
o que não era verdade, aguardava-o sem imaginar que, onde ele se
encontrava, as batalhas continuavam sem cessar.
Um dia Genowefa Czernik, querendo reduzir a ansiedade de Cyla, afirmou
que Jerzy morrera. Ela própria recebera a notícia de mensageiros
da resistência, disse a velha mulher.
Haviam vinte dias que os russos libertaram Gruszów. Cyla acha
verossímil as palavras de Genowefa e perdeu as esperanças.
Ela decidiu voltar para Lomza, onde esperava encontrar pelo menos algum
parente que houvesse sobrevivido.
Genowefa Czernik se desesperou com a decisão de Cyla. Ela não
contava com aquilo. Ao afirmar que Jerzy morrera, quis apenas que ela o
esquecesse e, pela todavia provável morte do mesmo, Cyla decidisse
ficar com eles para sempre. Genowefa a tinha tomado como uma filha presenteada
tardiamente. Ela chorou e suplicou para que Cyla mudasse de idéia
mas, no dia 25 de janeiro, Cyla se despediu e partiu para a estação
ferroviáriamais próxima. Depois de tudo ela terminara sozinha.
Perdera quem e o que estimava, a familia e o homem que a salvou e que ela
amou tanto. Cyla se perdia em pensamentos, perguntas e dúvidas naquela
manhã fria na plataforma da estação. À mão
uma velha mala remendada, a única que os Czerniks possuiam com algumas
poucas roupas e pertences.
Mais uma vez neste instante, os olhos profundos e tristes de Cyla chamaram
a atenção de alguém.
Ela notou que, alguns metros ao lado, um homem a observava. Ela procurou
evitar qualquer contato mas ele se aproximou e a abordou: " Não
tenha medo de mim ", disse ele, " eu também sou judeu ". Cyla assustou-se
e respondeu nervosa: " Eu não sou judia! ". O homem notou
o estado de desespero de Cyla, a acalmou aos poucos, percebeu que ela se
encontrava perdida e desorientada. Ele percebeu também a inconsistência
do que ela dizia, e sabia que, em Lomza, Cyla não encontraria mais
ninguém com vida.
Decidiu acompanhá-la até lá e constatando-se que
tinha razão, a levou consigo para a casa do seu irmão David..
* * * * *
No dia 29 de janeiro os russos libertaram a localidade de Igolomia, onde
Bielecki encontrava-se por último cercado com o seu grupo. Ele seguiu
de imediato para Gruszów, para buscar Cyla e, ao chegar, os Czerniks
relataram de forma resumida que ela partiu quatro dias antes para destino
que eles ignoravam.
Jerzy sentiu um vazio o dominar. A princípio nem acreditara.
Como poderia ter tudo terminado assim?
Nada restara fora as lembranças de Cyla. Durante noites e dias
após isso ele chorou e muitas vezes sentiu e sonhou com Cyla ao
seu lado. O cheiro do corpo frágil, os negros cabelos já
crescidos e os olhos de Cyla o acompanhavam sempre. Frequentemente voltou
à casa dos Czernik à espera de uma notícia.
Meses depois, numa de suas visitas, Genowefa Czernik mostra amargurada
uma foto que recebera. Na foto estava Cyla num leito hospitalar, ao lado
dela está um estranho. Ele é David Zacharowitz, irmão
do homem que acompanhara Cyla a Lomza. Ela morrera no hospital, mentiu
Genowefa, segundo os conhecidos que trouxeram a foto.
Jerzy, ao ver a foto de Cyla no leito, acreditou no que a velha senhora
contou. Ele perdera Cyla para sempre.
A verdade era que Cyla esteve no hospital mas recuperou-se e casou
com David Zacharowitz, que havia conhecido, por pensar que Jerzy havia
morrido. David proibiu ainda qualquer tentativa dela, de constatar de forma
efetiva a morte de Jerzy. Os dois seguiram para a Suécia e depois
para a América, os EUA, onde se estabeleceram em Nova York com uma
joalheria.
Jerzy voltou para sua cidade, tornou-se engenheiro e professor até
se aposentar em 1979, morando em Nowy Targ. Ele casou e do casamento nasceram
três filhos. Ele conviveu por quase quatro décadas com o silêncio
de uma amargura.
Tadeusz Srogi sobreviveu e vive hoje em Breslau, País Tcheco.
Ele foi libertado no Campo de Leitmeritz para onde foi transferido de Auschwitz
pelos nazistas, com a chegada iminente dos russos. David Zacharowitz, o
marido de Cyla, morreu em 1975..
* * * * *
.No dia 8 de junho de 1983 faz calor como
naquele dia de verão de 1944. Jerzy esperava suando e nervoso
o pouso do avião que traz Cyla ao seu encontro. Magro e já
grisalho ele aguarda sozinho por quem ele tanto amou, arriscou a própria
vida e depois perdera para sempre.
Cyla apareceu no hall do pouco movimentado aeroporto, olhando para
todos os lados à procura de Jerzy. Ao avistá-lo ela solta
a bolsa e tudo que traz, correndo emocionada ao seu encontro. Ele traz
um bouquet de rosas. Uma rosa para cada ano que se passara desde Auschwitz.
Eles se abraçaram em lágrimas um ao outro e assim ficaram
por um bom tempo.
Ninguém dos passantes imaginou o que ocorria naquele momento.
Jerzy e Cyla, cada um com seus sessenta e três anos, chorando abraçados
num hall de aeroporto da Polônia comunista, como dois adolescentes.
Os cabelos brancos dos dois contrastavam com o comportamento. Eles trocam
um profundo beijo úmido e apaixonado. Eles se tocam como a averiguar
de que estão mesmo vivos e acordados.
Aos dois pouco interessou o que o mundo imaginaria naquele momento.
Cyla fala primeiro, murmurando: " Jurek, você está usando
óculos..", e Jerzy respondeu com a mão afagando os olhos
e rosto molhado de lágrimas de Cyla: " Você não mudou.
Seus olhos continuam os mesmos..."
.
Assim chegava ao fim a espetacular história de amor de um dos
tempos mais negros da humanidade. Alguns personagens continuam vivos, entre
eles Jerzy e Cyla. Eles enfrentam ainda hoje os dramas de suas vidas mas
conseguem viver com o que passou.
Os dois foram uma vez à casa dos Czernik, visitando a velha
senhora Genowefa. À pergunta de Cyla, por que ela mentiu para Jerzy,
Genowefa respondeu apenas soluçando em lágrimas. Cyla e Jerzy
não insistiram. A velha senhora Czernik não merecia sofrer.
Era inútil também responder.
Genowefa e seu marido já faleceram.
O complexo de Auschwitz é hoje um centro histórico aberto
à visitação pública. Um enorme museu do macabro
e do terror. Mas apesar disso um palco de resistência à loucura
nazista e o lugar onde aconteceu um grande amor..
* * * * *
Final
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