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Introdução
1- O silêncio que grita
2- A última viagem
3- Nova York,  1983
4- Anatomia do terror
5- Montes humanos
 6-  Início de um amor
7-  Fugindo do inferno
8-  Final
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Apaixonados em Auschwitz
Uma História de Amor no Inferno
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8- Separados pelo destino (última parte)

Jerzy precisou tomar a decisão de pedir ajuda. A situação ficaria insustentável de qualquer forma, quando o inverno começasse a dar mostras de sua presença em dois ou três meses. Mesmo antes disso as noites já estariam frias o suficiente para castigá-los. Isso se os dois superassem o que, com certeza, ainda estaria por vir. A fraqueza de Cyla era mais que acentuada e os comandos de busca podiam surpreendê-los a qualquer momento. Quilômetros a leste Jerzy possuia um tio, onde poderiam se refugiar.
Ele pediu socorro a fazendeiros da região onde encontravam-se. Jerzy, apresentando Cyla como sua  irmã relatou que fugiram do regime de trabalho escravo alemão e estavam a caminho da casa de parentes que os protegeriam.
A gente simples polonesa foi mais solidária que esperavam, e passou a guiá-los em segurança à casa do tio 
de Jerzy, onde eles estariam a salvo por um bom tempo.
Ao finalmemnte chegar ao destino, dias depois, Jerzy agradeceu e perguntou como poderia pagar a ajuda. As pessoas negaram aceitar qualquer compensação  e reafirmaram não poder receber algo em troca, por ter ajudado foragidos de Auschwitz.  Mais uma vez a solidariedade sem interesse ajudou Jerzy e Cyla.
Na casa do tio eles encontraram a segurança necessária mas, em contrapartida, iniciou-se uma quase que permanente chegada de pessoas para visitá-los. Uma boa parte delas era de parentes de prisioneiros de Auschwitz, que procuravam notícias sobre o paradeiro do seus. Portanto uma exposição mais que arriscada para os dois. 
O exército vermelho se aproximava cada vez mais. Nas florestas e campos a resistência armada polonesa não dava tréguas aos alemães. Jerzy entretanto sabia que os rumores e as visitas constantes representavam um perigo. Sua mãe, católica fervorosa e conservadora, passou também a visitá-los. Ela não via com bons olhos o fato de seu filho estar com uma judia. Ainda que Cyla dissimulasse, ela se sentia discriminada e a situação pouco ajudava. Ela negava ser judia.
Por muito tempo ainda em sua vida, Cyla iria esconder das pessoas suas origens judaicas. Milhares de outros sobreviventes adotaram o mesmo comportamento.
A mãe de Jerzy aumentou as visitas e houve brigas. O falatório em torno dos dois tirou a paz e a segurança e os fez decidir por uma separação temporária. Jerzy juntou-se à resistência e Cyla é levada para uma pequena fazenda afastada, onde um casal sem filhos a recebeu calorosamente e onde ela teria finalmente paz. Os Czernik eram pobres mas boas pessoas. Eles praticamente adotaram Cyla, que passou a chamar Genowefa Czernik de "tia". Jerzy a visitava sempre que podia e dormia com ela na estreita cama de tábuas. Eles fazem planos e sonham do futuro juntos.
Chegou o inverno. Os contatos ficaram mais difíceis. Os movimentos de Jerzy entre a guerrilha da resistência e a pequena fazenda tornaram-se  impossiveis. Ele se utilizava do sistema de informação da própria resistência para mandar recados para os Czernik e Cyla, mas não obtia resposta.
No dia 3 de janeiro de 1945 o exército vermelho conquista a localidade de Gruszów, onde Cyla e os Czernik viviam.
Jerzy continua sem poder se movimentar, encurralado e escondido com camaradas da resistência, esperando a própria libertação.
Cyla podia andar agora pelas ruas sem medo. Ela esperou triste por notícias de Jerzy e, certa de que a guerra havia acabado para todos, o que não era verdade, aguardava-o sem imaginar que, onde ele se encontrava, as batalhas continuavam sem cessar.
Um dia Genowefa Czernik, querendo reduzir a ansiedade de Cyla, afirmou que Jerzy morrera. Ela própria recebera a notícia de mensageiros da resistência, disse a velha mulher.
Haviam vinte dias que os russos libertaram Gruszów. Cyla acha verossímil as palavras de Genowefa e perdeu as esperanças. Ela decidiu voltar para Lomza, onde esperava encontrar pelo menos algum parente que houvesse sobrevivido.
Genowefa Czernik se desesperou com a decisão de Cyla. Ela não contava com aquilo. Ao afirmar que Jerzy morrera, quis apenas que ela o esquecesse e, pela todavia provável morte do mesmo, Cyla decidisse ficar com eles para sempre. Genowefa a tinha tomado como uma filha presenteada tardiamente. Ela chorou e suplicou para que Cyla mudasse de idéia mas, no dia 25 de janeiro, Cyla se despediu e partiu para a estação ferroviáriamais próxima. Depois de tudo ela terminara sozinha. Perdera quem e o que estimava, a familia e o homem que a salvou e que ela amou tanto. Cyla se perdia em pensamentos, perguntas e dúvidas naquela manhã fria na plataforma da estação. À mão uma velha mala remendada, a única que os Czerniks possuiam com algumas poucas roupas e pertences.
Mais uma vez neste instante, os olhos profundos e tristes de Cyla chamaram a atenção de alguém.
Ela notou que, alguns metros ao lado, um homem a observava. Ela procurou evitar qualquer contato mas ele se aproximou e a abordou: " Não tenha medo de mim ", disse ele, " eu também sou judeu ". Cyla assustou-se e respondeu nervosa: " Eu não sou judia! ".  O homem notou o estado de desespero de Cyla, a acalmou aos poucos, percebeu que ela se encontrava perdida e desorientada. Ele percebeu também a inconsistência do que ela dizia, e sabia que, em Lomza, Cyla não encontraria mais ninguém com vida.
Decidiu acompanhá-la até lá e constatando-se que tinha razão, a levou consigo para a casa do seu irmão David..

* * * * * 
No dia 29 de janeiro os russos libertaram a localidade de Igolomia, onde Bielecki encontrava-se por último cercado com o seu grupo. Ele seguiu de imediato para Gruszów, para buscar Cyla e, ao chegar, os Czerniks relataram de forma resumida que ela partiu quatro dias antes para destino que eles ignoravam.
Jerzy sentiu um vazio o dominar. A princípio nem acreditara. Como poderia ter tudo terminado assim? 
Nada restara fora as lembranças de Cyla. Durante noites e dias após isso ele chorou e muitas vezes sentiu e sonhou com Cyla ao seu lado. O cheiro do corpo frágil, os negros cabelos já crescidos e os olhos de Cyla o acompanhavam sempre. Frequentemente voltou à casa dos Czernik à espera de uma notícia.
Meses depois, numa de suas visitas, Genowefa Czernik mostra amargurada uma foto que recebera. Na foto estava Cyla num leito hospitalar, ao lado dela está um estranho. Ele é David Zacharowitz, irmão do homem que acompanhara Cyla a Lomza. Ela morrera no hospital, mentiu Genowefa, segundo os conhecidos que trouxeram a foto.
Jerzy, ao ver a foto de Cyla no leito, acreditou no que a velha senhora contou. Ele perdera Cyla para sempre.
A verdade era que Cyla esteve no hospital mas recuperou-se e casou com David Zacharowitz, que havia conhecido, por pensar que Jerzy havia morrido. David proibiu ainda qualquer tentativa dela, de constatar de forma efetiva a morte de Jerzy. Os dois seguiram para a Suécia e depois para a América, os EUA, onde se estabeleceram em Nova York com uma joalheria.
Jerzy voltou para sua cidade, tornou-se engenheiro e professor até se aposentar em 1979, morando em Nowy Targ. Ele casou e do casamento nasceram  três filhos. Ele conviveu por quase quatro décadas com o silêncio de uma amargura.

Tadeusz Srogi sobreviveu e vive hoje em Breslau, País Tcheco. Ele foi libertado no Campo de Leitmeritz para onde foi transferido de Auschwitz pelos nazistas, com a chegada iminente dos russos. David Zacharowitz, o marido de Cyla,  morreu em 1975..

* * * * * 
.No dia 8 de junho de 1983 faz calor como naquele dia de verão de 1944.  Jerzy esperava suando e nervoso o pouso do avião que traz Cyla ao seu encontro. Magro e já grisalho ele aguarda sozinho por quem ele tanto amou, arriscou a própria vida e depois perdera para sempre.
Cyla apareceu no hall do pouco movimentado aeroporto, olhando para todos os lados à procura de Jerzy. Ao avistá-lo ela solta a bolsa e tudo que traz, correndo emocionada ao seu encontro. Ele traz um bouquet de rosas. Uma rosa para cada ano que se passara desde Auschwitz. Eles se abraçaram em lágrimas um ao outro e assim ficaram por um bom tempo.
Ninguém dos passantes imaginou o que ocorria naquele momento. Jerzy e Cyla, cada um com seus sessenta e três anos, chorando abraçados num hall de aeroporto da Polônia comunista, como dois adolescentes. Os cabelos brancos dos dois contrastavam com o comportamento. Eles trocam um profundo beijo úmido e apaixonado. Eles se tocam como a averiguar de que estão mesmo vivos e acordados.
Aos dois pouco interessou o que o mundo imaginaria naquele momento.
Cyla fala primeiro, murmurando: " Jurek, você está usando óculos..", e Jerzy respondeu com a mão afagando os olhos e rosto molhado de lágrimas de Cyla: " Você não mudou. Seus olhos continuam os mesmos..."
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Assim chegava ao fim a espetacular história de amor de um dos tempos mais negros da humanidade. Alguns personagens continuam vivos, entre eles Jerzy e Cyla. Eles enfrentam ainda hoje os dramas de suas vidas mas conseguem viver com o que passou.
Os dois foram uma vez à casa dos Czernik, visitando a velha senhora Genowefa. À pergunta de Cyla, por que ela mentiu para Jerzy, Genowefa respondeu apenas soluçando em lágrimas. Cyla e Jerzy não insistiram. A velha senhora Czernik não merecia sofrer. Era inútil também responder.
Genowefa e seu marido já faleceram.
O complexo de Auschwitz é hoje um centro histórico aberto à visitação pública. Um enorme museu do macabro e do terror. Mas apesar disso um palco de resistência à loucura nazista e o lugar onde aconteceu um grande amor..
* * * * * 
Final
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Introdução
1- O silêncio que grita
2- A última viagem
3- Nova York,  1983
4- Anatomia do terror
5- Montes humanos
 6-  Início de um amor
7-  Fugindo do inferno
8-  Final
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Veja nosso encontro com Jerzy Bielecki

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