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Daniel Cohn-Bendit e intifada na França: A curto prazo nada pode ser feito
Foi como dono de um discurso incendiário e à
frente das barricadas nas ruas de Paris, que Cohn-Bendit tornou-se o símbolo
da revolta. Filho de judeus alemães que mudaram-se para a França
com a ascensão de Hitler ao poder, ele estudava sociologia e sua incontestável
liderança decretou praticamente o início do fim da carreira
de uma das maiores legendas da França pós-guerra, o general
Charles De Gaulle. Cohn-Bendit falou ao Spiegel Online sobre o que acha da
atual onda de violência que voltou às ruas da capital francesa
e agora se espalha por todo o país: Spiegel Online: Os tumultos nos subúrbios
de Paris agora se ampliam por outras partes do país. Como o senhor
avalia a análise do ministro do interior francês, Nicolas Sarkozy,
de que os tumultos são feitos com "organização perfeita"? Cohn-Bendit: Idiotice sem sentido. Isso mostra
como ele não apenas fracassou como ministro do interior, mas agora
tenta também encobrir o fracasso com teorias de conspiração. Spiegel Online: A origem dos tumultos foi a
morte de dois jovens eletrocutados em uma subestação de energia
elétrica. Testemunhas afirmam que eles foram perseguidos pela polícia,
o que provocou a morte. O protocolo oficial do caso diz sobre outra causa.
Como é a atuação policial nos bairros problemáticos? Cohn-Bendit: Nesses bairros ocorrem diariamente
blitz policiais. Jovens africanos são os mais visados e controlados,
são chicanados e durante quatro horas detidos nas delegacias. Somente
após isso são liberados. Os dois jovens que morreram também
estavam sendo controlados. Nesse dia, às 16 horas, era Ramadan (jejum
islâmico) e eles queriam, com a aproximação da noite,
ir para casa comer e não passar quatro horas em um posto policial.
Por isso fugiram. Spiegel Online: Você desconfia do protocolo
policial, de que os jovens não foram perseguidos? Cohn-Bendit: O que quer dizer perseguir? Era
uma blitz policial. Os jovens queriam evitar o controle e correram. Os policiais
correram atrás deles. Spiegel Online: Você considera a atuação
da policia neste bairro como causa dos problemas? Cohn-Bendit: O problema ocorre desde que Sarkozy
encerrou a estratégia de manter policiais que eram ancorados nos bairros.
Desde então são enviadas unidades especiais para a área,
onde todos são controlados. Com isso existe há anos um ambiente
permanente de desconfiança e controle. O fato mistura-se ao alto índice
de desemprego e o racismo existente na polícia, resultando na atual
força explosiva social. Spiegel Online: Você é a figura
símbolo da revolta parisiense de 1968. Consegue compreender que a insatisfação
da juventude é descarregada nas ruas com violência? Cohn-Bendit: Todos os dias somos confrontados
com uma situação de violência na periferia parisiense.
Diante de tal bastidor vem um ministro do interior e diz: - Eu vou desentulhar
isso e quem for contra será soprado fora. Ou alguém tem coragem?
- Naturalmente existem jovens suficientes que já vivem em uma
situação de violência e respondem: - Sim, naturalmente
nós temos coragem e vamos mostrar isso, seu tagarela. Spiegel Online: Você fala da estratégia
de "tolerância zero" de Sarkozy. Por outro lado o governo diz que está
procurando diálogo. Cohn-Bendit: ...Depois, depois! Quando a criança
cai no poço, primeiro fica molhada. Depois eu posso utilizar toalhas,
mas inicialmente ela fica molhada. Nos subúrbios domina, há
anos, uma situação altamente tensa. Spiegel Online: Sociólogos temem que
a violência se radicalize. Jovens que participam são citados
com frases como : "Isso é só o começo." Você
acredita que a crise vai mesmo se acentuar? Cohn-Bendit: Da mesma forma que coisas assim
começam, podem também, de maneira rápida, terminar.
Ninguém pode prever como isso começa e, igualmente, ninguém
pode prever como vai terminar. Spiegel Online: O presidente Jacques Chirac
e o chefe de governo Dominique de Villepin anunciaram para o fim do mês
um plano de ação para a ocupação de jovens desempregados.
O que você espera disso? Cohn-Bendit: Isso lembra 1783. Plano de ação.
O problema não é mais para se resolver simplesmente com um plano
de ação. É preciso resolver a questão dos guetos.
São guetos que hoje, na Alemanha, por exemplo, sequer se conhece.
Eles precisam resolver a questão de desemprego na juventude que é
muito, muito maior que na Alemanha. Algo como um sistema dual de formação
não existe na França. As familias de imigrantes possuem um índice
extremo de desemprego. Existem familias que já por duas gerações
não conhecem outra situação que não seja desemprego.
Além disso, durantes os anos formaram-se nestes bairros bandos e gangues
de drogas. Eu acho curioso que Chirac e Villepin agora querem sentar juntos
em torno do assunto mas, tanto faz o que fizerem, o resultado não
será tão rápido. Spiegel Online: E o que poderia dar resultados
rápidos? Cohn-Bendit: Uma estratégia policial
totalmente diferente. Em algumas cidades existem algo como mediadores que
procuram relaxar aos poucos a atmosfera. Contudo, isso exige uma forte disposição
da polícia para autocrítica. Quem acha que a violência
só pode ser enfrentada com o endurecimento, eu tenho que advertir:
Isso não é um jogo de azar. A polícia pode se apresentar
de forma dura e coibir a violência mas, amanhã, os tumultos surgem
em Montpellier, Lyon ou Marselha. Spiegel Online: Se um plano de ação
não faz sentido, como deve ser uma estratégia política
de longo prazo? Cohn-Bendit: Naturalmente é mais fácil
falar do que fazer. É necessária uma estratégia que
não somente diminua o desemprego, mas também medidas que possibilitem
a integração material dos jovens na sociedade. Spiegel Online: Qual é o papel das
escolas? Cohn-Bendit: As escolas nos subúrbios
estão, sem exceção, completamente sobrecarregadas. Os
professores fogem e toda a estratégia nas áreas problemáticas
fracassou. Estas escolas não podem realmente tratar dos problemas da
imigração porque elas acreditaram que era apenas necessário
educar os imigrantes, no sentido tradicional, de uma forma melhor. Seria necessário
desenvolver um sistema que dê maior autonomia às escolas, também
para a atuação de pedagogos reformadores. Isso exige, naturalmente,
altos investimentos financeiros e pedagógicos. Spiegel Online: Como a Europa pode contribuir para
a solução do problema? Desenvolvendo continuamente o modelo
social europeu? Cohn-Bendit: A curto prazo nada pode ser
feito. A longo prazo a Europa precisa comparar as diferentes estratégias
de integração dos estados membros. Então se irá
concluir que todos os modelos de formação europeus fracassaram
ali, onde a cota de imigração era maior. Olhe na Inglaterra,
olhe na Holanda, França, Bélgica ou na Alemanha, em todos os
lugares os sistemas educacionais excluíram os filhos de imigrantes.
É nisso que a Europa tem que trabalhar. Spiegel Online: Você apontou para diferenças
entre França e Alemanha. Também na Alemanha se reclama de guetos
e sociedades paralelas. Seria possivel um surgimento de violência parecida
também no país? Cohn-Bendit: Eu acredito que, surgindo tais
conflitos na Alemanha, não chegariam aos níveis de violência
da França. Aparentaria muito eruptivo e violento, entretanto,
o potencial explosivo é na Alemanha muito menor. Eu sempre digo: Berlim-Kreuzberg
é uma ilha de felicidade, se comparada com o que existe na França. Brasileira que mora em Paris faz reveladora radiografia
da crise na França |
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