ABK NET 
Notícias - Reportagens - Produções

[ Home |  | Volta  | Feedback ]
.
.
Daniel Cohn-Bendit e intifada na França: A curto prazo nada pode ser feito
.
Daniel Daniel Cohn-Bendit
ABKnet News
06/11/2005

Pela décima noite consecutiva ocorrem e ampliam-se os tumultos e incêndios na onda de violência que, começando na periferia de Paris, agora espalha-se por toda a França. Nicolas Sarkozy , ministro do interior, anunciou linha dura das autoridades para por fim aos protestos. Em tempo fala sobre o assunto a maior autoridade sobre protestos e tumultos: Daniel Cohn-Bendit, batizado pelos franceses "Dany Le Rouge", foi o maior líder dos protestos que abalaram a França e se espalharam pela Europa nos idos de 1968.  Hoje ele é deputado no parlamento europeu pelo Partido Verde da Alemanha.

Foi como dono de um discurso incendiário e à frente das barricadas nas ruas de Paris, que Cohn-Bendit tornou-se o símbolo da revolta. Filho de judeus alemães que mudaram-se para a França com a ascensão de Hitler ao poder, ele estudava sociologia e sua incontestável liderança decretou praticamente o início do fim da carreira de uma das maiores legendas da França pós-guerra, o general Charles De Gaulle. Cohn-Bendit falou ao Spiegel Online sobre o que acha da atual onda de violência que voltou às ruas da capital francesa e agora se espalha por todo o país:

Spiegel Online:  Os tumultos nos subúrbios de Paris agora se ampliam por outras partes do país. Como o senhor avalia a análise do ministro do interior francês, Nicolas Sarkozy, de que os tumultos são feitos com "organização perfeita"?

Cohn-Bendit:   Idiotice sem sentido. Isso mostra como ele não apenas fracassou como ministro do interior, mas agora tenta também encobrir o fracasso com teorias de conspiração.

Spiegel Online:   A origem dos tumultos foi a morte de dois jovens eletrocutados em uma subestação de energia elétrica. Testemunhas afirmam que eles foram perseguidos pela polícia, o que provocou a morte. O protocolo oficial do caso diz sobre outra causa. Como é a atuação policial nos bairros problemáticos?

Cohn-Bendit:   Nesses bairros ocorrem diariamente blitz policiais. Jovens africanos são os mais visados e controlados, são chicanados e durante quatro horas detidos nas delegacias. Somente após isso são liberados. Os dois jovens que morreram também estavam sendo controlados. Nesse dia, às 16 horas, era Ramadan (jejum islâmico) e eles queriam, com a aproximação da noite, ir para casa comer e não passar quatro horas em um posto policial. Por isso fugiram.

Spiegel Online:   Você desconfia do protocolo policial, de que os jovens não foram perseguidos?

Cohn-Bendit:   O que quer dizer perseguir? Era uma blitz policial. Os jovens queriam evitar o controle e correram. Os policiais correram atrás deles.

Spiegel Online:   Você considera a atuação da policia neste bairro como causa dos problemas?

Cohn-Bendit:   O problema ocorre desde que Sarkozy encerrou a estratégia de manter policiais que eram ancorados nos bairros. Desde então são enviadas unidades especiais para a área, onde todos são controlados. Com isso existe há anos um ambiente permanente de desconfiança e controle. O fato mistura-se ao alto índice de desemprego e o racismo existente na polícia, resultando na atual força explosiva social.

Spiegel Online:   Você é a figura símbolo da revolta parisiense de 1968. Consegue compreender que a insatisfação da juventude é descarregada nas ruas com violência?

Cohn-Bendit:   Todos os dias somos confrontados com uma situação de violência na periferia parisiense. Diante de tal bastidor vem um ministro do interior e diz:  - Eu vou desentulhar isso e quem for contra será soprado fora. Ou alguém tem coragem?  - Naturalmente existem jovens suficientes que já vivem em uma situação de violência e respondem: - Sim, naturalmente nós temos coragem e vamos mostrar isso, seu tagarela.

Spiegel Online:   Você fala da estratégia de "tolerância zero" de Sarkozy. Por outro lado o governo diz que está procurando diálogo.

Cohn-Bendit:   ...Depois, depois! Quando a criança cai no poço, primeiro fica molhada. Depois eu posso utilizar toalhas, mas inicialmente ela fica molhada. Nos subúrbios domina, há anos, uma situação altamente tensa.
Um evento apenas é suficiente para provocar de repente um incêndio generalizado. Então é propagada pela imprensa a onda de violência, outros jovens vêem e dizem para si: Isto nós fazemos também. Nos anos 60 também foi assim. Quando em Hamburgo e Berlim havia um protesto, os de Frankfurt também prostestavam. São fenômenos conhecidos.

Spiegel Online:   Sociólogos temem que a violência se radicalize. Jovens que participam são citados com frases como : "Isso é só o começo."  Você acredita que a crise vai mesmo se acentuar?

Cohn-Bendit:   Da mesma forma que coisas assim começam, podem também, de maneira rápida, terminar. Ninguém pode prever como isso começa e, igualmente, ninguém pode prever como vai terminar.

Spiegel Online:   O presidente Jacques Chirac e o chefe de governo Dominique de Villepin anunciaram para o fim do mês um plano de ação para a ocupação de jovens desempregados. O que você espera disso?

Cohn-Bendit:   Isso lembra 1783. Plano de ação. O problema não é mais para se resolver simplesmente com um plano de ação. É preciso resolver a questão dos guetos. São guetos que hoje, na Alemanha, por exemplo, sequer se conhece. Eles precisam resolver a questão de desemprego na juventude que é muito, muito maior que na Alemanha. Algo como um sistema dual de formação não existe na França. As familias de imigrantes possuem um índice extremo de desemprego. Existem familias que já por duas gerações não conhecem outra situação que não seja desemprego. Além disso, durantes os anos formaram-se nestes bairros bandos e gangues de drogas. Eu acho curioso que Chirac e Villepin agora querem sentar juntos em torno do assunto mas, tanto faz o que fizerem, o resultado não será tão rápido.

Spiegel Online:   E o que poderia dar resultados rápidos?

Cohn-Bendit:   Uma estratégia policial totalmente diferente. Em algumas cidades existem algo como mediadores que procuram relaxar aos poucos a atmosfera. Contudo, isso exige uma forte disposição da polícia para autocrítica. Quem acha que a violência só pode ser enfrentada com o endurecimento, eu tenho que advertir:  Isso não é um jogo de azar. A polícia pode se apresentar de forma dura e coibir a violência mas, amanhã, os tumultos surgem em Montpellier, Lyon ou Marselha.

Spiegel Online:  Se um plano de ação não faz sentido, como deve ser uma estratégia política de longo prazo?

Cohn-Bendit:   Naturalmente é mais fácil falar do que fazer. É necessária uma estratégia que não somente diminua o desemprego, mas também medidas que possibilitem a integração material dos jovens na sociedade.

Spiegel Online:  Qual é o papel das escolas?

Cohn-Bendit:   As escolas nos subúrbios estão, sem exceção, completamente sobrecarregadas. Os professores fogem e toda a estratégia nas áreas problemáticas fracassou. Estas escolas não podem realmente tratar dos problemas da imigração porque elas acreditaram que era apenas necessário educar os imigrantes, no sentido tradicional, de uma forma melhor. Seria necessário desenvolver um sistema que dê maior autonomia às escolas, também para a atuação de pedagogos reformadores. Isso exige, naturalmente, altos investimentos financeiros e pedagógicos.

Spiegel Online: Como a Europa pode contribuir para a solução do problema? Desenvolvendo continuamente o modelo social europeu?

Cohn-Bendit:   A curto prazo nada pode ser feito. A longo prazo a Europa precisa comparar as diferentes estratégias de integração dos estados membros. Então se irá concluir que todos os modelos de formação europeus fracassaram ali, onde a cota de imigração era maior. Olhe na Inglaterra, olhe na Holanda, França, Bélgica ou na Alemanha, em todos os lugares os sistemas educacionais excluíram os filhos de imigrantes. É nisso que a Europa tem que trabalhar.

Spiegel Online: Você apontou para diferenças entre França e Alemanha. Também na Alemanha se reclama de guetos e sociedades paralelas. Seria possivel um surgimento de violência parecida também no país?

Cohn-Bendit:  Eu acredito que, surgindo tais conflitos na Alemanha, não chegariam aos níveis de violência da França.  Aparentaria muito eruptivo e violento, entretanto, o potencial explosivo é na Alemanha muito menor. Eu sempre digo: Berlim-Kreuzberg é uma ilha de felicidade, se comparada com o que existe na França.

Brasileira que mora em Paris faz reveladora radiografia da crise na França

Página principal

Assine você também  nossos News

.[ Home |  | Volta  | Email ]

ABKNET -  Pfarranger 4 -  84416  Taufkirchen / Vils -  Germany
 Tel.: 0049 - ( 0 ) 8084 - 3359        Fax: 0049 - ( 0 ) 8084 - 7785