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Domingo 05/03/00
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Caio Koch-Weser e o duro caminho para o FMI

Ele obteve exatos  43.24% dos votos, quinta-feira passada, na eleição preliminar para posto de diretor-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI). O segundo lugar, o americano Stanley Fischer, atual diretor-geral interino do fundo, ficou muito atrás com pouco mais de 12%.  O candidato japonês, Eisuke Sakakibara  9%  e 36% se absteve. Para ser efetivado no posto entretanto qualquer candidato precisa obter o consenso ou, no mínimo, a maioria absoluta. Os EUA, com 17% dos votos, que são proporcionalmente distribuídos, possuem enorme importância ainda que nunca apresentaram candidato próprio ao cargo. Pelos cálculos os americanos se abstiveram da votação mas pelos fatos nunca se intrometeram tanto numa escolha que há quase sessenta anos é feita pelos europeus sem interferências: O cargo é normalmente ocupado por um europeu desde a fundação do FMI em 1944. Em troca a chefia do Banco Mundial (onde Koch-Weser era diretor) pertence aos americanos.
 

Mundo globalizado faz do FMI uma instituição mais que cobiçada.

Jamais o posto de chefe do fundo foi tão disputado. Desde quinta-feira o que tem se visto é uma batalha política na imprensa e nos bastidores internacionais. No centro deste tiroteio está o teuto-brasileiro Caio Koch-Weser de cinquenta e cinco anos, nascido em Rolândia no Paraná, que aceitou, ano passado, o convite para ser o vice-ministro de finanças da Alemanha, abandonando o cargo de diretor do Banco Mundial.

Não se sabe com certeza o que levou Koch-Weser a aceitar o convite do ministro Eichel, do ministério das finanças da Alemanha, para assumir o obscuro cargo de secretário de estado do tal ministério, que equivale a ser um dos vice-ministros. Cerca de seis meses após isso ele virou candidato ao posto de Michel Camdessus que renunciou depois de treze anos no comando do fundo.

Resistência à candidatura

Já nos primórdios da candidatura surgiu firme resistência. Sem citar nomes, por exemplo, o influente periódico inglês "Financial Times" trazia frequentemente artigos onde ora traçava o perfil do candidato ideal para o cargo, ora frisava que, para as reformas necessárias, seria preciso um nome de estatura internacional com autoridade a se interpor aos diferentes interesses dos membros do fundo. Isso quando Koch-Weser já era o candidato oficial da Alemanha para o posto. O mesmo acontecia com jornais americanos e de outros países.

Um das razões apontadas para a aversão ao nome de Koch-Weser é menos política, técnica ou pessoal e muito mais diplomática:  A chamada "arrogância germânica" tem sido apontada mesmo na Alemanha, por quem defende a candidatura do teuto-brasileiro. Os alemães quiseram como que quase "empurrar com a barriga" o candidato, tomando como certa sua eleição e deprezando o duro trabalho diplomático de bastidores. Isso provocou mal-estar mesmo em aliados de sempre, como a Itália e França. Os americanos perceberam os recados vindos do velho continente e, através principalmente do ministro Lawrence Summers, orquestraram abertamente o movimento contrário a Koch-Weser. Tudo culminou com um recado inusitado e pouco usual, quando o presidente Clinton declarou dois dias antes da eliminatória de quinta-feira passada, que a candidatura de Koch-Weser era inaceitável. Isso foi um bombardeio de peso e direto contra o candidato. É também um fato que nunca aconteceu na história de sucessão em organismos internacionais.

Desenvolvimento ou austeridade?

Outra razão é mesmo de cunho meramente técnico: A passagem de Koch-Weser pelo Banco Mundial faz dele mais um "desenvolvimentista" que um austero "xerife", capaz de colocar os indisciplinados países gastadores e problemáticos no canto da parede. Moderador e defensor de saídas negociadas ele conhece, pela sua experiência anterior, a realidade de países africanos, latinoamericanos e do bloco leste. Ele era o responsavel pela distribuição dos bilhões de dólares destinados ao desenvolvimento dos bolsões mundiais de pobreza. Para isso teve muitas vezes que fazer vista grossa para muitos desvios dos governantes destes países, em troca de projetos tidos como prioritários pela política do Banco Mundial. Ele é tido como conciliador.

Brasil não votou no brasileiro

Quase todos os grandes jornais da Europa trazem versões as mais variadas para o desenrolar do impasse agora criado. Enquanto o chanceler Schröder afirma que a candidatura continua de pé e o presidente da UE, o primeiro-ministro português Guterres, confirma o apoio, jornais como "Bild", " Die Welt" e outros asseguram que outro candidato está sendo procurado. O italiano Romano Prodi, membro da comissão européia, declarou à imprensa inglesa que a saída é substituir o candidato por um nome consensual. Praticamente a cada dia surge um candidato alternativo, seja ele o já aposentado ex-presidente do Bundesbank Tietmeyer ou o inglês Andrew Crocket, chefe do Banco Internacional de Compensação, quando não rumores sobre a renúncia do candidato, negada depois de percorrer meio mundo. A candidatura Caio Koch-Weser foi simplesmente "queimada" de forma sistemática.

Apesar de a imprensa brasileira afirmar o contrário, o Brasil não votou em Koch-Weser. A ABKnet conseguiu extra-oficialmente (os números normalmente não são divulgados) um mapa de votação onde na verdade não consta qual o voto do grupo dos brasileiros, mas que enumera exatamente os votantes de Koch-Weser. Nele constam detalhados os votos computados como certos para Caio: Os da União Européia, da Suiça, da China e de países do bloco leste que se comprometeram com o candidato. Os números somam exatamente o resultado da prévia eleitoral de quinta-feira. 
É sabido que a equipe economica do governo brasileiro nunca foi simpática à candidatura.
O governo da Alemanha reclamou nas entrelinhas, a falta de apoio de países em desenvolvimento.
A posição dúbia do Brasil pode ser tomada como revanche:  Na sua última viagem à China, em novembro passado, o chanceler Schröder se comprometeu a lutar pela admissão dos chineses no restrito grupo do G-7, ampliando-o para G-8, com a presença asiática. Isso foi um golpe rasteiro num parceiro tradicional como o Brasil, que além de uma economia muito mais confiável que a dos chineses, possui o maior número de indústrias da Alemanha, fora da Alemanha. 
É injustificável contudo que o Brasil deixe de apresentar um ponto de vista claro sobre o assunto. 

A novela da sucessão na chefia do FMI pode ainda durar e guardar muitos capítulos.

Veja também os links:

Caio renuncia e nem Brasil vota nele
Brasil mostra ser "pau mandado"
Uma curta biografia de Caio Koch-Weser
 

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