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Copa 2006: Os perigos no caminho do hexa (22/05/06)


Seleção apela a Deus (Foto: FifaCom)
Por Antonio Bulhões

Johan Cruyff, o mais brilhante jogador do futebol holandês, parece ter verdadeiro prazer em contar a história. Era semifinal da copa do mundo de 1974. Os holandeses, com seu famoso carrossel, contra uma seleção brasileira que iniciava a era pós-Pelé.  Apesar de enfraquecida, sem o rei, a seleção era forte concorrente ao título e chegava às semifinais. Vencer o Brasil, para os holandeses, não seria algo impossivel, mas exigia algumas medidas complementares. Com um meio campo inteligente, de passes precisos e um ataque rápido e disciplinado, o forte do time canarinho era vencer a linha burra das defesas adversárias. Neutralizar esta característica infalível dos brasileiros seria o caminho para a vitória, segundo os holandeses. Mas como?
É aí que Cruyff dá uma risadinha de capeta, em uma antiga entrevista à TV holandesa: Nós combinamos que, sempre que um atacante brasileiro receber o passe em jogadas perigosas para nossa defesa, nós levantaríamos em bloco os braços, pedindo impedimento. A pressão psicológica e a rapidez dos lances confundiria juíz e bandeirinhas.  Não deu outra. Quem vê o tape do jogo constata  quantas vezes isso aconteceu e como, para desespero dos jogadores brasileiros, o impedimento foi marcado pelo juiz. Em dois lances claros pode-se especular que seria muito difícil o centro-avante Valdomiro  não ter acertado o gol. O Brasil perdeu por 2 x 0 e sequer teve ânimos para vencer a Polônia na disputa pelo terceiro lugar: Perdeu de 1 x 0.
Fatos como esse ilustram como a catimba também pode ser usada com êxito em uma copa do mundo.  O favoritismo do Brasil na copa da Alemanha fará os adversários exigirem o máximo da seleção. É uma posição desvantajosa, ao contrário do que se pensa,  sem falar no "determinismo histórico" que só reservou tragédias coletivas para os favoritos de copas do mundo, por melhor que eles fôssem.

Claro, pode-se argumentar, pelo menos no golpe do impedimento praticado pelos holandeses não iremos mais cair, pois até mesmo as regras mudaram. Os italianos já demonstraram, discretamente, como estarão utilizando a nova regra do impedimento para burlar a vigilância de zagueiros. Pela nova regra, o impedimento só pode ser marcado quando o jogador em questão tocar a bola. Colocando jogadores propositalmente em impedimento, para confundir a defesa, e fazendo jogadores próximos, em posição regular e previamente treinados para o lance, partirem para a jogada tem sido um dos segredos dos italianos nos treinamentos. A jogada, exercida com maestria, possibilitou dois gols no jogo que a Itália venceu recentemeente por 4 x1 a Alemanha. São os truques táticos que podem decidir jogos. Provocações, forçar quedas dentro da área brasileira e simular faltas já fazem parte do repertório. Portanto é preciso pensar e estar preparado para tudo.

Manipulações e intrigas

Não cessam com isso os perigos. Manipulações e fatores extra-campo  podem igualmente arrasar aspirações.  A própria escolha do país-sede da copa do mundo já foi um exemplo de como imprensa e intrigas influenciam resultados e decisões. O grande favorito para sediar a copa de 2006 era a África do Sul. Ao fim da maratona dos países candidatos, dois blocos restaram. Um tendia  pela Alemanha e o outro pelo país africano. Os africanos possuíam numericamente a vantagem, mas só na estatística. A imprensa alemã é pródiga quando se trata de determinadas situações. Na noite anterior à votação, quando os delegados dos países filiados à FIFA escolheriam a sede da copa, os jornalistas da revista satírica alemã Titanic tiveram a idéia que iria misturar novamente as cartas. Um fax endereçado  pessoalmente a todos os delegados das entidades, enviado a seus respectivos hotéis e assinado por Martin Sonneborn, como secretário do comitê de uma "iniciativa para a copa na Alemanha". O fax era uma falsificação em inglês e Sonneborn na verdade o chefe de redação do Titanic. O texto era incisivo e direto: " Diante da difícil situação a Alemanha enfatiza um apelo para sediar a copa do mundo de 2006. Vamos direto ao assunto: Como reconhecimento pelo seu apoio, no caso de votar pela Alemanha, faremos um pequeno presente chegar às suas mãos: Uma fina cesta contendo especialidades da Floresta Negra,  incluindo deliciosas lingüiças, presuntos e - segure-se  -  um maravilhoso relógio cuco. Nós confiamos na sabedoria de sua decisão amanhã", concluia o texto.

O fato provocou tamanha indignação, que o delegado Charles Dempsey, representante da Nova Zelândia, partiu na manhã seguinte sem sequer participar da votação. Seu voto estava determinado para a África do Sul. A abstenção de Dempsey favoreceu a Alemanha, que venceu o sufrágio por um voto de diferença. O escândalo ocupou o noticiário e a FIFA ameaçou o Titanic com um processo no valor de 600 milhões de euros. Ficou só na ameaça. Sonneborn escreveu um livro sobre como o Titanic trouxe a copa para a Alemanha e o resto foi para baixo do tapete.

A guerra de mídia não deve ser subestimada no torneio. É o próprio Cruyff quem conta, na mesma entrevista mencionada acima, não mais com um sorriso irônico, como, após vencer o Brasil, a Holanda perdeu antecipadamente a final contra a Alemanha. Um dia antes do jogo o tablóide teutônico "Bild" estampava a piscina vazia do hotel onde se hospedava a delegação holandesa, com uma manchete revelando que os craques oranges haviam ali praticado imensa farra com orgia, acompanhados de irresistíveis garotas de programa. Falsa ou não, a notícia explodiu na Holanda, correu o mundo e arrasou psicologicamente o time: " Nós perdemos o jogo naquele dia, antes de jogar", confessa agora um cabisbaixo craque.  "Como explicar ao país e nossas mulheres, em tão pouco tempo, que era tudo mentira ? ", finaliza ele.

Uma prova de como a paz pode vir a ser pertubada, com notícias incômodas para os brasileiros, foi dada na Copa das Confederações, no último ano. Um jornal alemão divulgou matéria sobre a sede por caipirinha dos jogadores brasileiros e do esforço de atendentes do hotel para providenciar na cidade cachaça e gelo a tardias horas da madrugada. Logo o assunto era reproduzido por outros meios de comunicação. Os jogadores brasileiros negaram e venceram até o torneio, mas ficaram espantados com as notícias. Vale atentar, isso aconteceu em algo sem importância como o referido torneio. Na copa a coisa é outra. Já faz a roda entre alguns círculos, os motivos para os altos e baixos nos últimos tempos, o calcanhar de aquiles do craque  brasileiro Ronaldinho Gaúcho: Os porres homéricos, segundo as más línguas, frutos de uma especulada queda pelo álcool. Fato é que a guerra já começou. Fotos com o jogador em estado presumidamente etílico e acompanhado de figuras femininas já estão na internet. Entre farras, mulheres e boatos, o Brasil que se cuide. O hexa não virá de presente.

Ronaldinho
Craque de porre?


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