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A mais bela copa de todos os tempos (09/07/06)

 
Telão em Stuttgart - Ruas superaram os estádios (foto:fifa.com)
 
Por Antonio Bulhões para o ABKnet, da Alemanha

É indescritível e, até quatro semanas atrás inimaginável, o que ocorreu na Alemanha durante esta copa do mundo. Apesar do novo campeão mundial, no campo de jogo, ser a Itália, que após um empate de 1 x1 no tempo regulamentar e prorrogação, venceu a França nos pênaltis (5x3), os grandes campeões da imensa festa que se tornou o país durante o evento, são público e organizadores alemães.
Jamais na história do país, nem mesmo na inesperada vitória da copa de 1954 ou na queda do muro, houve uma euforia simultânea que levasse ao mesmo tempo, de norte a sul do país, milhões  de pessoas às ruas, trajando e carregando seus símbolos e cores nacionais e contagiando de alegria os incrédulos visitantes de todas as partes do mundo.

Idem, pela primeira vez na história do futebol e de uma copa, o centro de gravidade das festas de torcidas nos jogos do país-sede do evento, transferiu-se dos estádios para os telões gigantescos, os chamados Public Viewings, nos centros das grandes cidades, que atraiu uma massa humana não calculada pelos organizadores, a ponto de, sempre horas antes dos jogos, por motivos de segurança, terem suas entradas fechadas por superlotamento. Em Berlim, por exemplo, o público médio foi de 900 mil pessoas, com piques de mais de um milhão, nos jogos da semi-final entre Alemanha x Argentina e pelo terceiro lugar, Alemanha x Portugal .
Eram nessas áreas dos telões que, independente da nacionalidade e da torcida, aconteciam as grandes celebrações e onde ocorriam as verdadeiras festas de alegria, até mesmo nas derrotas. Isso fez os canais de TV mudarem a estratégia e, paralelamente às transmissões dos jogos, colocarem permanentemente equipes com flashes constantes do que os alemães batizaram de "Fanmeile" ( traduzido livremente: Área dos fãs). Esta foi a grande alteração qualitativa desta copa, fora dos campos. O fato foi de tal forma notório, que a FIFA já declarou que irá investir esforços e organização para usar o know how adquirido pelos alemães nos próximos torneios.

A euforia e a festividade  apenas reforçou o tema "o mundo entre amigos", escolhido pelo comitê organizador. É também relevante o fato de que, mesmo com tamanhas multidões, praticamente inexistiu incidentes sérios. A segurança, que estava preparada até mesmo para atentados com armas biológicas, teve muito menos trabalho do que temeu.
A imagem e a beleza das comemorações com certeza contribuiu decididamente para melhorar a imagem da Alemanha pelo mundo, é a opinião de políticos e autoridades locais, mas os elogios chegam de todas as partes, sejam do presidente da Fifa, Joseph Blatter, ao primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair.

Empolgada com a atmosfera, a seleção alemã programou para este domingo, em Berlim, na dita "Fanmeile", no Portão de Brandenburgo, uma última despedida, apresentando-se ao público para agradecer o apoio e o terceiro lugar conquistado: Mais uma vez um milhão de pessoas estiveram  presentes.

fanmeile
"Fanmeile" em Berlim (Foto: Fifa.com)

Juventude alemã puxou o país e seleção


Imprensa, intelectuais e políticos alemães perguntam-se diariamente sobre o que de repente aconteceu para o evento da copa do mundo  transformar o país em um fenômeno normalmente somente visto em carnavais de terras distantes. A verdade está nos rostos que se viu nas ruas: o que puxou a alegria foi a nova juventude alemã. Desprendida do eterno fardo deixado pela história da geração que provocou a guerra, aliviada da imensa carga de reconstruir o país da cinzas, tarefa assumida pela sisuda geração imediata pós-guerra, esta nova geração é descendente da que já cresceu em um o país se estruturando, mas tímida com relação aos seus valores nacionais, cabreira com o passado dos avós, cética com os valores vingentes e o rigor dos pais.
A nova geração, pelo contrário, não teve medo de empunhar e fazer das ruas um mar de bandeiras, símbolo nacional que vivia praticamente escondido em mastros de pátios oficiais.  - Por que outros o podem e nós não?  - É uma pergunta que traz em si a resposta.
Ciente de que, longe de motivos políticos, a vida pode às vezes ser simplesmente uma festa, uma celebração, jovens pintados, fantasiados, embandeirados contagiaram alegria mesmo a quem, vindo de outras bandas, está costumado com ela. Fez estrangeiros cantarem e dançarem com eles, vibrarem na vitória e aceitarem com menos tristeza a derrota de seus times. Tudo isso aliado a uma seleção que, mesmo perdedora, mostrou disposição de luta em campo, cujos jogadores demonstravam  vontade e corriam até à exaustão. Seleção perdedora sim, mas consciente do dever cumprido, em paz com a vida e com o público. Isso pode valer mais do que ser campeão e dói menos que cair por moleza.

O melhor exemplo do clima que tomou conta dos alemães pode ser  observado até mesmo na cena musical. Pela primeira vez os três primeiros lugares na parada musical do país é disputado há semanas por três canções com temas de futebol e copa do mundo. É um recorde mundial.
Como frisa um famoso semanário local,  o país não foi campeão no futebol, mas é campeão da copa dos corações. Haja coração.

Backenbauer, mais uma vez


Beckenbauer
Franz Beckenbauer

Franz Beckenbauer é a figura mais ilustre do futebol alemão. Foi ele o principal responsável pela vinda do evento da copa ao país e, além de eminência-mor inconstestável do esporte em terras germânicas, foi o presidente do comitê organizador da torneio. Há fatos contudo, que são desconhecidos, principalmente para os brasileiros, sobre outras facetas do Kaiser, como é chamado na Alemanha.
Beckenbauer é um fã incondicional do Brasil e do futebol brasileiro.  Em todas entrevistas que relembram seu passado e sua experiência, ele faz questão de mencionar o Brasil. Fala de Pelé como seu "irmão" brasileiro e já relatou em diversas oportunidades como ficou amigo dele e outros brasileiros no seu tempo do Cosmos de Nova Iorque.  É Beckenbauer quem está por trás, para ilustrar, da atual exposição em Berlim, a "Pelé Station", a mais abrangente e original sobre o craque brasileiro. Sequer em sua terra natal houve homenagem parecida.
O Kaiser é quem pede, discretamente, total apoio a seus amigos de imprensa e esportes locais, para promover e prestigiar o rei. Em todos os eventos oficiais, como o sorteio dos grupos desta copa, em Leipzig, faz questão da presença de Pelé.
Mesmo nos  piores tempos de críticas a Pelé no Brasil, quando ele foi até mesmo discriminado pela CBF, era Beckenbauer quem tentava, nem sempre com sucesso, influenciar a favor do rei através de canais na FIFA. Espera-se que, se a copa um dia chegar ao Brasil, esta consideração seja retribuída.
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