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Segunda 14/01/02 
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Em parte alguma da África
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Regina e  Owuor: A infância desconhece preconceitos (Foto: Constantin Film)

Caroline Link pode ser um nome ainda desconhecido mas tem a bagagem suficiente de quem já teve uma obra sua indicada para o Oscar. Seu novo filme "Nirgendwo in Africa" (Em parte alguma da África), no qual assina tanto o roteiro como direção, está conseguindo lotar as salas de cinemas da Alemanha neste início de ano. Para o combalido mundo do filme germânico, órfão desde a morte do excêntrico e insuperável Rainer Fassbinder apesar de espasmos esporádicos (de) e como Wim Wenders, é uma surpresa ver algo que tem todas as condições disputar com Hollywood  bilheteria, sem apelar e tratando de um tema com seriedade. Link, que não é nenhuma Fassbinder, possui pelo menos as mesmas origens profissionais e ambiente artístico que viriam a revelar o famoso diretor: A cidade de Munique. 

 "Nirgendwo in Africa" é a filmagem do romance autobiográfico da escritora Stefanie Zweig, filha de pais judeus, que durante a Alemanha nazista partiu para o Quênia pouco antes de ser tarde demais. 
O filme desvia-se por completo, indo mesmo de encontro a outras produções famosas onde o tema África apenas é abordado para enfeitar dramas amorosos e existenciais de brancos saxões. Link vai além. 
É dificil tratar de temas como nazismo, judeus perseguidos, infância, relacionamento social, traição conjugal e preconceitos gerais sem cair em clichês ou doses de maniqueísmo. Tratar de tudo isso em único um filme sem descambar para o kitsch é realmente uma proeza. 

O filme

O promissor advogado Walter Redlich (Merab Ninidze) emigra para o Quênia em 1938, ao antever o que estava por vir com a radicalização nazista. Lá consegue um emprego numa fazenda, onde é obrigado a trocar a profissão de jurista para cuidar de vacas e plantagens alheias. 
Após algum tempo Redlich consegue convencer sua esposa Jettel (Juliane Köhler), oriunda pequeno- burguesa da alta-sociedade judaica da então efervescente cidade de Breslau (hoje pertecente à Polônia), a segui-lo com a pequena filha Regina (Karoline Eckertz). 
Para Jettel é um choque cultural, social e até culinário ter que viver num mocambo, numa sociedade para ela primitiva de negros tribais além de ter que carregar a própria água em latões. Ela logo pensa em retornar. Os acontecimentos na Alemanha a obrigam contudo a ficar. 

Para a pequena Regina (Karoline Eckertz), apesar de nunca ter visto pessoas de outra cor de pele ou cultura,  tudo é mais fácil. Abraçada calorosamente na chegada pelo cozinheiro Owuor (Sidede Onyulo), Regina  logo iria esquecer a neve da terra natal. Mergulhando involuntaria e despretensiosamente no místico e simples modo de vida do estranho povo, a princípio escondida da mãe, ela absorve não apenas o dialeto tribal, não apenas os costumes, ela passa a assumir como também seu aquele mundo, integrando-se a ele. Prova de que conceitos pré-elaborados é que determinam o comportamento do ser humano com relação a crancos sociais como discriminação. Mas a película não interfere, apenas expõe essa realidade, fruto da real  experiência da escritora Stefanie Zweig. Mesmo em pormenores, Link (ou Zweig)  faz perceber sutilmente também como pessoas simples como o cozinheiro Owuor conseguem estabelecer laços de relacionamento que desconhecem jogos de interesses e há muito esquecidos pela dita civilização (ocidental), se é que esse termo faz mesmo sentido. 

O filme mostra com clareza que coisas como sabedoria ou  solidariedade não são virtudes exclusivas do mundo civilizado, muito pelo contrário. Toca da mesma forma no sensível e eterno dilema de identidade dos judeus alemães. E entrega o paradoxal comportamento da pequeno-burguesa esposa Jettel, ao fim da guerra e a perspectiva de retorno à Alemanha com um bom emprego para o marido Walter. Jettel havia descoberto, ao fim dos compulsórios anos de África, o que tem de mais valor na vida. E resiste em voltar à Europa. 

"Nirgendwo in Africa" tem ainda a presença enriquecedora do ator Matthias Habich que, interpretando um  também emigrado, torna-se amigo íntimo da familia. Talvez mais íntimo do que Walter Redlich desejasse. Habich é um conhecido ator de teatro na Alemanha, que até hoje conseguiu resistir às investidas da tv e cinema. Suas cenas revelam sua origem do palco, pelo caráter estático típico do teatro que ele não consegue esconder, mas sua personalidade é marcante e consegue roubar a atenção quando aparece. Sobre a decisão de trabalhar no filme ele afirmou em entrevista recente que fez isso porque o mesmo é realmente bom. 
Juliane Köhler foi indicada para o papel principal pela sua atuação como uma das protagonistas no filme "Aimée & Jaguar" que retratava o amor homossexual entre duas mulheres na Berlim nazista. 
Merab Ninidze que na vida real também emigrou da Geórgia para a Áustria atuou antes em filmes alternativos como "Luna Papa", além de atuações esporádicas em seriados de tv. Talvez sua condição real de emigrante o tenha ajudado a assumir um convincente Walter Redlich com sua incansável fé na humanidade. 

Sem malabarismos de câmera, sem modernosos efeitos especiais e sem reinventar o cinema, "Nirgendwo in Africa" é um filme para ver, sentir e meditar. Principalmente num momento em que o mundo tende a cair em estereótipos raciais e culturais, conseqûencias do atentado aos EUA em 11 de setembro do último ano. 
Para um país multi-cultural como o Brasil, será interessante ver uma África que faz parte de sua origem de um ângulo mais natural . Resta saber se as distribuidoras também pensam assim. 


Walter e Jettel (Foto: Constantin Film)

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