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Caroline Link pode ser um nome ainda desconhecido mas tem a bagagem suficiente de quem já teve uma obra sua indicada para o Oscar. Seu novo filme "Nirgendwo in Africa" (Em parte alguma da África), no qual assina tanto o roteiro como direção, está conseguindo lotar as salas de cinemas da Alemanha neste início de ano. Para o combalido mundo do filme germânico, órfão desde a morte do excêntrico e insuperável Rainer Fassbinder apesar de espasmos esporádicos (de) e como Wim Wenders, é uma surpresa ver algo que tem todas as condições disputar com Hollywood bilheteria, sem apelar e tratando de um tema com seriedade. Link, que não é nenhuma Fassbinder, possui pelo menos as mesmas origens profissionais e ambiente artístico que viriam a revelar o famoso diretor: A cidade de Munique. "Nirgendwo in Africa" é a filmagem do romance autobiográfico
da escritora Stefanie Zweig, filha de pais judeus, que durante a Alemanha
nazista partiu para o Quênia pouco antes de ser tarde demais.
O filme O promissor advogado Walter Redlich (Merab Ninidze) emigra para o Quênia
em 1938, ao antever o que estava por vir com a radicalização
nazista. Lá consegue um emprego numa fazenda, onde é obrigado
a trocar a profissão de jurista para cuidar de vacas e plantagens
alheias.
Para a pequena Regina (Karoline Eckertz), apesar de nunca ter visto pessoas de outra cor de pele ou cultura, tudo é mais fácil. Abraçada calorosamente na chegada pelo cozinheiro Owuor (Sidede Onyulo), Regina logo iria esquecer a neve da terra natal. Mergulhando involuntaria e despretensiosamente no místico e simples modo de vida do estranho povo, a princípio escondida da mãe, ela absorve não apenas o dialeto tribal, não apenas os costumes, ela passa a assumir como também seu aquele mundo, integrando-se a ele. Prova de que conceitos pré-elaborados é que determinam o comportamento do ser humano com relação a crancos sociais como discriminação. Mas a película não interfere, apenas expõe essa realidade, fruto da real experiência da escritora Stefanie Zweig. Mesmo em pormenores, Link (ou Zweig) faz perceber sutilmente também como pessoas simples como o cozinheiro Owuor conseguem estabelecer laços de relacionamento que desconhecem jogos de interesses e há muito esquecidos pela dita civilização (ocidental), se é que esse termo faz mesmo sentido. O filme mostra com clareza que coisas como sabedoria ou solidariedade não são virtudes exclusivas do mundo civilizado, muito pelo contrário. Toca da mesma forma no sensível e eterno dilema de identidade dos judeus alemães. E entrega o paradoxal comportamento da pequeno-burguesa esposa Jettel, ao fim da guerra e a perspectiva de retorno à Alemanha com um bom emprego para o marido Walter. Jettel havia descoberto, ao fim dos compulsórios anos de África, o que tem de mais valor na vida. E resiste em voltar à Europa. "Nirgendwo in Africa" tem ainda a presença enriquecedora do ator
Matthias Habich que, interpretando um também emigrado, torna-se
amigo íntimo da familia. Talvez mais íntimo do que Walter
Redlich desejasse. Habich é um conhecido ator de teatro na Alemanha,
que até hoje conseguiu resistir às investidas da tv e cinema.
Suas cenas revelam sua origem do palco, pelo caráter estático
típico do teatro que ele não consegue esconder, mas sua personalidade
é marcante e consegue roubar a atenção quando aparece.
Sobre a decisão de trabalhar no filme ele afirmou em entrevista
recente que fez isso porque o mesmo é realmente bom.
Sem malabarismos de câmera, sem modernosos efeitos especiais e
sem reinventar o cinema, "Nirgendwo in Africa" é um filme para ver,
sentir e meditar. Principalmente num momento em que o mundo tende a cair
em estereótipos raciais e culturais, conseqûencias do atentado
aos EUA em 11 de setembro do último ano.
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