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A culpa é de Ibiúna (19/07/2005)

No dia 12 de outubro de 1968, um chuvoso sábado tropical, mais de duzentos policiais e agentes do famigerado DOPS paulista conseguiram uma façanha talvez única no mundo. Pelo menos no Brasil uma proeza sem precedentes:  Em um enlameado sítio encravado no município de Ibiúna, cidadezinha de interior no sul do estado de São Paulo, as forças a serviço da ditadura prenderam, de uma botinada só e sem enfrentar resistência, mais de mil estudantes que participavam do XXX Congresso Nacional da UNE, entidade nacional estudantil proibida pelos generais no poder.

Era a nata da liderança estudantil brasileira, pega como coelhinhos inocentes, na ação mais fácil já realizada pela repressão no país. A partir daí o movimento estudantil, um dos únicos canais de oposição ao regime ainda em atividade, esfacelou-se definitivamente.
Na terça-feira anterior, Ibiúna, na verdade uma vilazinha de 6 mil habitantes, começou a receber as caravanas com as lideranças vindas de todos os estados do Brasil. Dali os estudantes eram levados ao sítio Murundu, próximo da cidade. Primeiro foram os comerciantes que começaram a estranhar os elementos forasteiros fazendo compras volumosas na cidade, que iam de escovas de dentes a alimentos. O fato culminou quando uns cabeludos chegaram a uma padaria local para comprar 2 mil pães (!!) e um agricultor, que fora ao sítio cobrar dívida antiga de um saco de milho, foi encarcerado durante dois dias pelos ingênuos líderes.  O resto da história todo mundo já sabe.

Vale frisar que os estudantes foram até avisados, um dia antes, que a policia ia chegar. Os incompetentes responsáveis pelo evento acreditaram ser intriga das facções em briga pela direção da entidade. Eles tinham à frente ninguém menos que José Dirceu e companheiros, hoje mais uma vez em evidência.

Sem aprender a lição, é inacreditável, o que sobrou de oposição de esquerda resolveu então escolher os lamaçosos pantanais do Araguaia, para finalmente fazer a revolução. Nunca se viu uma revolução onde praticamente não existe povo. Queriam eles amotinar capivaras e onças-do-mato ?
Também aí, na lama amazônica, tendo entres seus líderes, coincidências da vida,  José Genoíno, foi fácil para as forças do governo encurralar os voluntariosos guerrilheiros kamikazes da selva.
Nunca vi ou li autocríticas destes líderes. Os culpados sempre foram a direita, a ditadura. Nunca admtiram que facilitaram os trabalhos dos repressores por incompetência.

Foi um trabalho árduo para a geração posterior reerguer as entidades estudantis e reorganizar a luta contra o regime. Mas um trabalho muito mais competente e produtivo. Primeiro veio a luta pela abertura dos diretórios nas universidades, depois as primeiras greves estudantis, os primeiros enfrentamentos  com os batalhões e seus pastores alemães, sempre nas grandes cidades, junto ao povo. Discretamente foi levantada a bandeira pela anistia.
Aos poucos a campanha ganhou as ruas, ganhou os artistas e suas músicas, ganhou os trabalhadores, ganhou a simpatia do povo.

A reconstrução da UNE foi um marco. Não teve AI-5, nem general que conseguiu impedir o congresso de reconstrução em Salvador. Ali, nos braços do povo baiano, milhares de estudantes fizeram a festa. E que a policia tentasse algo contra. Iriam ter que acabar com a população da cidade, que apoiou abrindo portas e janelas para hospedar os participantes.
Vendo que a maré não estava prá peixe, os repressores haviam mudado a tática. Tentaram deter os líderes antes destes chegarem a Salvador. Até listas negras foram distribuídas em aeroportos. A ordem era obstruir, deter, atrapalhar. Pelo menos foi o alerta chegado aos estudantes.
Barreiras policiais foram montadas na fronteiras entre os estados.  Não adiantou. Todo mundo chegou lá. Os líderes de Pernambuco, por exemplo, foram levados por voluntários insuspeitos e desconhecidos das fichas policiais em seus automóveis particulares. Enquanto a policia vasculhava os ônibus com os delegados representantes a caminho, a liderança passava livremente as barreiras, dando sinais aos companheiros nos ônibus inspecionados, que após liberados seguiam gritando o refrão: Povo e soldado, estão do nosso lado!    O congresso foi um duro golpe na ditadura e foi uma farra.

Não foi fácil, não senhor. As reuniões preparatórias para o evento final de reconstrução levaram tempo. Eram feitas clandestinamente nos grandes centros como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Uma vez, com os líderes reunidos em uma universidade do Rio, o encontro teve que ser dissolvido às pressas. Forças policiais estariam a caminho e uma ameaça de bomba fora feita. Se a policia chegou, não encontrou mais ninguém no local. Os estudantes estavam já espalhados pela cidade, com nova reunião e local previamente marcados. Para tudo havia uma previsão.

Houve prisões sim. Uma vez prenderam o militante Edval Nunes da Silva, o Cajá. Mas foi articulada uma campanha tão grande e bem feita, que até mesmo o falecido Henfil e suas charges entraram no protesto, ocupando lugar na grande imprensa censurada. Cajá foi praticamente libertado na marra do cárcere, no Batalhão de Cavalaria do Recife.
Havia perseguições, coações, intimidamentos. Mas ao mesmo tempo formas de evitar situações de perigo. Sempre junto ao povo, nunca andar distraído, principalmente quando sozinhos, sempre atravessar inesperadamente as ruas e observar ao redor. Exemplos que Ibiúna deveria ter seguido.

Finalmente o Brasil levantou-se junto. A anistia chegou, suada mas bem vinda. Ampla, Geral e Irrestrita. Os exilados voltaram para casa, logo depois os generais para os quartéis, o povo para as ruas, sem medo de ser feliz.
A grande maioria dos militantes partiu para a vida. O país estava livre dos sabres que atormentavam e começava nova história. Politíca, para a geração vitoriosa, foi a arte de cumprir a missão sem praticar o voluntarismo irresponsável e sem interesses pessoais. Nenhuma ditadura do mundo é invencível e nada, nada, após a queda da mesma, justifica maracutaias e safadezas. Nisso essa geração tem autoridade para falar. Autoridade e resultados.

Os atos suicidas e infantis dos encurralados nos lamaçais do Araguaia e Ibiúna foram proféticos. A esquerda brasileira tem maus chefes sim. A geração que derrubou a ditadura está certa. Aliás, alguns não entenderam a lição. Vejam os exemplos de Humberto Costa e Aldo Rebelo.
Rebelo é um dos que estavam naquela reunião dissolvida às pressas, que falo lá em cima. São pessoas que não aprenderam. São renitentes incorrigíveis. Agora estão atolados em outro lamaçal de Dirceu, Genoíno e companheiros. Desta vez em Brasilia.

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