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Meu inimigo número 1


Por Ítalo Rocha * (13/02/2004)

 Na condição de ex-fumante, inveterado, por sinal, me sinto na obrigação de repassar, mesmo tanto tempo depois, minha experiência na luta contra o cigarro. E só o faço porque fui vitorioso. Se tivesse sido ao contrário, estaria, neste momento, em busca de artigos dessa linha para criar coragem de largar tão nocivo vício.

Não tenho pretensões de criar, com este artigo, um guia do tipo "como deixar de fumar". Minha pretensão é, tão somente, dar uma contribuição, mesmo que mínima, aos que, de alguma forma, estão querendo, pensando ou tentando se libertar do velho hábito de aspirar e soltar fumaça todos os dias. Para quem se enquadra nessas condições, digo, logo de cara, que deixar de fumar é fogo! Aliás, Winston Churchil pensava ao contrário. Segundo dizia o grande estadista inglês, "deixar de fumar é fácil... e mais fácil ainda é voltar a fumar".

Partindo desse princípio, devo dizer que cometi vários equívocos no início da minha longa batalha contra o fumo. Sempre que resolvia largar o cigarro, saía logo propagando aos quatros cantos do mundo: "Deixei de fumar!". Alguém encostava perto de mim para falar sobre assuntos os mais diferentes possíveis e logo vinha eu com o peito estufado repetir a bravata: "Deixei de fumar". Poucos dias depois, lá estava eu novamente com o cigarro no bico e atolado na frustração. Pois bem, a primeira medida a adotar depois de várias tentativas fracassadas foi exatamente a de não divulgar minha futura e possível decisão de largar o vício.
E já que estava disposto mesmo a um dia me libertar de um vício que tanto mal me causava, olhei pra dentro de mim mesmo e jurei: "Não sei quando vou parar. Mas quando o fizer, não direi para ninguém. Quem quiser que perceba". E assim fui caminhando, em silêncio, na luta contra um vício que me rondou e me conquistou ainda na adolescência, na faixa etária dos 13 aos 14 anos.

Mas, antes de concluir essa história, gostaria de citar alguns dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), que me foram repassados pelo médico pneumologista Blancard Torres, uma das pessoas mais dedicadas que conheço na luta contra o cigarro.
Pois bem, segundo levantamento da OMS, em colaboração com Imperial Cancer Research Fund's Cancer Studies Unit, de Oxford, um estudo feito em 50 países estimou que, entre 1950 e o ano de 2000, fumar causou cerca de 62 milhões de óbitos, o correspondente a 12,5% do total de mortes. Desse total, 20% eram homens e 4% mulheres e mais da metade dessas mortes (38 milhões) ocorreram entre as idades de 35 e 69 anos.

Outra conclusão importante, segundo a OMS: atualmente fumar é a causa de uma morte em cada três homens de idade mediana e uma em cada oito mulheres. Voltando à experiência vivida por mim, em 1989, casado e o primeiro dos meus três filhos pronto para nascer, comecei a refletir sobre minha dependência do cigarro.
Deitava na varanda do meu apartamento, no bucólico bairro de Casa Forte, e começava a pensar no mal que estava fazendo a mim mesmo com aquele vício. E vinha sempre a pergunta que nunca queria calar: "Por que uma coisinha daquele tamanho, tão minúscula, me dominava tanto?". E aí, solitariamente, tomei uma decisão: "Vou deixar de fumar definitivamente e não vou contar pra ninguém. Quem quiser que perceba!".

Filosoficamente, decidi também não dialogar com a vontade. Ou seja, nada de "fumo ou não fumo?"... "devo parar ou não?". O erro estava justamente nesse diálogo com os meus desejos. E todas as vezes que isso acontecia, eu era o perdedor. Hoje, quinze anos depois, sem nunca mais ter posto um cigarro na boca, olho pra mim mesmo e, copiando uma tese proustiana, posso afirmar: "Fumar é tão bom quanto não fumar!" Ítalo Rocha Leitão é jornalista.


Ítalo Rocha, de Recife,  é jornalista.
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