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Sexta-feira - 07/05/2004
Por Antonio Bulhões
Gdansk 

O Operário e a Ditadura - Uma história real

Era uma vez uma ditadura e um operário. 
Como todas as ditaduras, o regime mantinha-se no poder à custa da repressão, perseguição dos opositores, fossem eles de qualquer segmento ou classe da sociedade: Políticos, estudantes, clérigos e,  claro, operários.
Ajudada pelas armas e o silêncio de seus porões, como  todas as  ditaduras até hoje, dezenas de anos se passaram quando, aos poucos, a resistência aos ditadores de plantão foi sendo ensaiada, a princípio timidamente.

Um operário, desses típicos dos personagens em poemas de poetas de esquerda, teve a coragem e ousadia de levantar sua voz, reorganizar novamente entidades de classe e desafiar a ditadura. Seu nome corria  de boca em boca de norte a sul do país. Logo o  movimento cresceu, e a ele juntou-se gente de todos os lados. Vieram as primeiras greves, passeatas e protestos enfim, como sempre acontece no crepúsculo de todas as ditaduras.

O operário, festejado herói da classe operária e do  povo em geral, virava um símbolo da luta e sua fama ia além das fronteiras. Chegava a hora de - por que não? - finalmente assumir o poder. Democraticamente, pelo voto, pelo sim ou lá pelo não, o poder é muito mais que viver somente na oposição. Foi eleito com o apoio de milhões. O delírio quase geral que tomava conta da  nação enchia de esperança mesmo o mais dos pessimistas, ecoando além-mar.

Foi aí que começou o declínio. Escândalos, decisões equivocadas, política rabo de cabra, desavenças com o próprio partido, populismo  e conivência com o que condenava, foram apagando a luz que emanava da estrela decantada. A experiência fracassaria de  forma tão contundente como havia começado. O poder não corrompe necessariamente, mas com certeza embriaga mais do que se pensa.

O operário em questão, o polonês Lech Walesa, vive hoje o ostracismo cruel que normalmente é reservado a ditadores. Isolado em Gdansk, onde tudo começou, parece mais velho do que é. Em um  pequeno escritório gentilmente cedido pelo sindicato "Solidarnosc", aparece  algumas vezes por mês, atendendo trabalhadores com
problemas e sindicalistas da província. Às vezes é convidado para  uma ou outra palestra e, para não descer a patamares pouco condizentes com sua condição de ex-herói e ex-presidente, teve sua aposentadoria engordada em alguns Zloty pelo governo.

Quem te viu, quem te vê, diria um poeta popular. Walesa não vai terminar como um operário qualquer, seus sucessores e sindicato cuidarão de que isso não aconteça, mas sua fase termina triste e amarga, como o fim de uma ditadura.
Como todas as ditaduras não aprendem, seria bom que pelo menos operários-presidentes aprendessem. E assim termina a história da ditadura e o operário. 
O povo continuou vivendo infeliz para sempre. Como sempre.

antoniobulhoes@abknet.de

Qualquer semelhança com personagens presentes ou futuros é mera coincidência


Lech Walesa

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