ABK NET 
Notícias - Reportagens - Produções

[ Home |  | Volta  | Feedback ]
.
.
Tout va très bien, Madame la Marquise.. (07/11/05)
Por Luciana P.  Arantes *

" Tout va très bien, Madame la Marquise.."  é uma canção popular, dos anos 30, enorme sucesso cantado por Ray Ventura e que todo francês, pequeno ou grande, conhece até hoje. Ausente durante 15 dias, a Marquesa telefona para casa para ter notícias e, do outro lado do fio, seu criado anuncia que os animais da propriedade morreram porque as estrebarias queimaram, que o fogo se alastrou pelo castelo, que o Marquês se vendo arruinado se suicidou, mas que tirando estes pequenos detalhes, não havia porque se preocupar e que tudo estava na mais perfeita ordem.
A história de uma casa em fogo e que desmorona de todos os lados enquanto se continua a fazer de conta que tudo está em ordem, não poderia ser mais atual.

Montins com queima de carros são relativamente comuns na França, principalmente em Estrasburgo. Durante o Réveillon de Ano Novo de 2005, por exemplo, 29 automóveis foram incendiados na cidade. Desta vez, o tumulto começou dia 27 de outubro, com a morte de 2 jovens, de 15 e 17 anos, eletrocutados por terem se abrigado de um controle da policia em uma subestação de energia de alta tensão. A policia nega tê-los perseguido e, até agora, as circunstâncias da morte dos dois rapazes não foram elucidadas. Na noite seguinte, os protestos começaram e se alastraram país afora.

Imigrante é cidadão de segunda categoria: Política de apartheid e guetos

Os primeiros grandes conjuntos habitacionais, chamados HLM ou cités, foram construídos após a guerra para abrigar as famílias do baby boom. Em seguida vieram as populações deslocadas com a independência das colônias, do desmonte das grandes favelas no começo dos anos 70 e as famílias de imigrantes, boa parte mão de obra mandada trazer pelo governo francês quando o trabalho era muito e precisava-se braços para trabalhar nas indústrias e fábricas.

30 anos depois, a globalização tornou o sonho de uma vida melhor amargo. As indústrias francesas se instalam em países de mão de obra barata e onde a produção é feita a preços mais competitivos. Já não há mais trabalho para todos. Os filhos desta primeira onda de imigração aprendem que a sociedade os quer apenas para ocupar o mesmo lugar em que seu pais estiveram. Apesar de franceses, são considerados como cidadãos de segunda categoria.

Desemprego, racismo, falta de perspectivas. Os jovens descobrem que o jogo tem as cartas marcadas. Mal preparados, com escolas de má qualidade, eles serão naturalmente excluídos pelo mercado de trabalho.
Em Clichy, cidade de 28 mil habitantes, colada a Paris, onde começou a revolta, apenas 4.7% dos habitantes tem nível superior e 25% não tem trabalho. Mas a taxa de desemprego da população na faixa de 18 -25 pode chegar a 45% em certas áreas. Na França, nação dos direitos humanos, sempre pronta a dar lições de conduta ao resto do mundo, uma tal política de apartheid não poderia ser aparente. Mas ela existe.
O "Elevador Republicano", que garante a todos um lugar na sociedade, de acordo com os seus méritos, está com as máquinas permanentemente quebradas e com as portas fechadas. Contornando a lei, agências de emprego ou imobiliárias inventam códigos para dizer a origem de tal ou tal candidato ou cliente. Controles de documentos são freqüentes, os jovens sentem-se visados, fala-se do delito de "sale-gueule", de fáceis. A engrenagem está lançada. As Cités, algumas com nomes bucólicos como "La Petite Hollande", que nada têm a ver com a realidade de seus habitantes, se transformam em guetos.

Ministro Sarkozy procura simpatia da extrema-direita

E assim, sucessivamente, foi-se empurrando a situação com frases de efeito e planos de ação desativados pelo governo seguinte. Desde 2002 as subvenções dadas às associações não param de ser reduzidas, com 310 milhões de Euros a menos no orçamento este ano. As figuras dos "grands frères", responsáveis pelo diálogo entre o poder público e as comunidades , assim como o projeto da Polícia de Proximidade foram cortados.
A partir da chegada ao Ministério do Interior de Nicolas Sarkozy, futuro candidato às eleições presidenciais, a recuperação política da situação das periferias se acelera. Em visita a uma delegacia em um destes bairros o Ministro solta, em direção da equipe em roupa de domingo e de um delegado tetanizado por levar tamanho sabão em público e na frente de todas as câmaras de tevê, a frase :  "organizar um jogo de futebol entre os jovens do bairro e os funcionários da delegacia não é a função da policia, a primeira função da polícia é o combate à delinqüência ". A nova maneira de ação está lançada : repressão, controles e operações para combater o tráfico e delitos diversos. As intervenções, sempre filmadas, são mostradas nos jornais da noite.

Aqui e ali, pequenos deslizes e frases de efeito são empregados para arrancar a simpatia do eleitorado da extrema direita.  Após 11 dias de conflito, sindicatos minoritários de policia mas também políticos locais como Michel Pajon, prefeito socialista de Noisy le Grand, cidade 19 km a leste de Paris, sugerem a intervenção das forças armadas, para o controle da situação.
Diante da gravidade da crise, Chirac fez uma declaração à nação divulgada em todos os telejornais às 20 h de domingo. Disse que a prioridade é o restabelecimento da segurança e ordem pública, que os responsáveis serão punidos de maneira severa, que medidas seriam tomadas em favor dos bairros da periferia, mas que antes era preciso acabar com a baderna. A resposta foi a noite mais violenta dos últimos dias : 1408 veículos queimados, 395 pessoas presas, mais de 30 policiais feridos, dos quais 2 por arma de fogo, escolas e instalações públicas incendiadas. Hoje à noite o Primeiro Ministro, Dominique de Villepin, fará um pronunciamento à nação com proposições para solucionar o problema.

Curiosamente, o tratamento da informação pela imprensa estrangeira e francesa diferem : os conflitos ocupam com fotos de 5 colunas a primeira página dos jornais em quase todos os países. Correspondentes internacionais em Paris não hesitam a comparar os incidentes a maio de 1968, ou com as revoltas dos guetos de Los Angeles em 1992.
Cogitam sobre a possibilidade de alastramento da violência aos países vizinhos. A imprensa francesa parece um pouco mais discreta sobre o assunto. O Libération de hoje trás na capa uma charge e 6 páginas sobre os incidentes. Mas nenhuma foto de veículos ou de prédios em chamas....tout va très bien, Madame la Marquise, tout va très bien…

* Luciana P. Arantes é produtora, brasileira e reside em Paris

Página principal

Assine você também  nossos News

.[ Home |  | Volta  | Email ]

ABKNET -  Pfarranger 4 -  84416  Taufkirchen / Vils -  Germany
 Tel.: 0049 - ( 0 ) 8084 - 3359        Fax: 0049 - ( 0 ) 8084 - 7785