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O segredo da Volkswagen do Brasil
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Gebauer Klaus-Joachim Gebauer
ABKnet News
03/10/2005

Klaus-Joachim Gebauer, figura chave no espetacular escândalo que envolve a maior montadora de automóveis da Europa, não cessa de aparecer nas manchetes de periódicos em volta do mundo. Na última quinta-feira ele foi chamada de capa em uma das principais revistas da Alemanha, a Stern, onde concedeu uma entrevista de dez páginas, cujo conteúdo ocupou espaço até mesmo em jornais sisudos como o inglês The Guardian e conservadores tablóides portugueses. Gebauer apenas confirmou o que muita gente já sabe: O sistema montado pelos decadentes executivos da empresa desconhecia fronteiras, escrúpulos e limites financeiros.

Muito do que Gebauer disse à Stern não foi novidade para os leitores do abknet. Acompanhando o caso desde o início e adiantando-se aos fatos em semanas, há quem mostre perplexidade ao ver nossas revelações serem confirmadas pelos protagonistas, pela auditoria interna e pelo ministério público alemão. Ainda há muita coisa sob o tapete de maracutaias que cobre o quarto maior fabricante de automóveis do mundo. Os porta-voz do Ministério Público de Braunschweig, Klaus Ziehe, confessou esta semana que, por mais incrivel que aparente ser, depois de mais de dois meses de investigações e depoimentos, o caso está ainda no início.  Os envolvidos ainda têm muito a dizer.
Apesar de tudo, a filial brasileira da montadora não se pronunciou sobre o assunto até hoje. Apesar da gravidade das denúncias e apesar dos fatos. É como se tudo houvesse acontecido em terras distantes, na matriz.

O início de tudo: Av. Atlântica, 3264 - Rio de Janeiro

Janeiro de 1996. No auge do verão carioca chega ao Rio a comitiva de diretores e representantes dos diferentes  conselhos de empregados da Volkswagen. Era a primeira reunião do Conselho Geral de Empresa, grêmio que reúne sindicalistas e diretores de todo o grupo. Até aquela data, as periódicas reuniões dos executivos eram pelo menos discretas. Diante do mar de Copacabana, hospedados no hotel Othon Palace, número 3264 da Avenida Atlântica, vista para o mar, a discrição cedeu lugar à gandaia, durante uma semana. Auxiliados pelos colegas brasileiros, iniciou-se na praia e nas discotecas das imediações o recrutamento de mulheres para os senhores acima de qualquer suspeita. Funcionários do hotel, solícitos e subservientes, presenciavam incrédulos, talvez temerosos, a ida e vinda das garotas, juntas com os "importantes gringos".
Perguntas, como se algumas delas seriam menores de idade ou sobre a conveniência de importantes executivos de uma das mais conceituadas empresas do mundo  fomentarem, com o comportamento, uma das maiores feridas sociais do país que visitavam? Ninguém questionava. O importante é o prazer. A conta? A firma assume, em dinheiro vivo, à vista, em dólar ou real. Gebauer paga.

Começou assim, no Brasil, o sistema de viagens de prazer que hoje faz parte dos protocolos policiais na Alemanha. A partir dali não foi mais possivel imaginar uma reunião sem a participação de prostitutas. Quase dez anos de orgias e, para os menos potentosos, havia até mesmo distribuição de viagra, segundo o próprio Gebauer. "- No Brasil é muito fácil chegar a mulheres desse tipo. Tanto faz se em uma discoteca ou na praia", diz ele abertamente, sem medir a dimensão de suas palavras.  "Depois disso, tanto fazia onde estivessemos, a primeira pergunta era: Gebauer ! Cadê as mulheres?", confessa.

VW do Brasil organizava na América do Sul

A promiscuidade dos executivos adquiriu sistema. Na Alemanha, onde tudo não é tão fácil como no Brasil, foi necessário criar infra-estrutura própria. Por exemplo, alugar discretos imóveis com garagem subterrânea e elevador de frente para a porta do apartamento, de forma que os visitantes corressem o mínimo de riscos de serem vistos. As mulheres eram recrutadas em clubes noturnos locais. Para os mais exigentes, elas chegavam de avião, importadas do Brasil ou brasileiras que ganham a vida em Portugal.
Quando a ocasião exigia, eram alugados imóveis por alguns dias apenas, casas deslocadas dos centros.
Mulheres eram então contratadas a grosso: Cinco, seis, sete, por um preço combinado, com direito a abatimento devido quantidade, pelos cafetões. Numa dessa ocasiões, em Hannover, um fim de semana de orgia custou à Volkswagen 30 mil euros, incluídos o imóvel e sete mulheres.

Fora da Alemanha, o esquema montado chegou a contratar um grupo de prostitutas que seguia em avião  de carreira as escalas dos executivos, que viajavam no jato lotado da empresa, pela Índia. Em cada cidade os diferentes grupos, masculino e feminino, juntavam-se para as noites de sussurros impublicáveis.

E no Brasil ? Não somente no Brasil, mas em toda a América do Sul, os responsáveis pela organização de orgias eram os colegas de Gebauer na filial brasileira. "Afinal de contas, como poderia eu organizar tudo isso sozinho ?", ressalta, para complementar: " Tudo que acontecia na América do Sul com relação a isso era organizado pelo diretor de Recursos Humanos de lá".  Este é o segredo do silêncio da montadora brasileira. Um silêncio que não é dos inocentes.
Um silêncio que é acima de tudo uma falta de respeito às autoridades e ao povo de um país que fez da filial uma das mais renomadas do grupo. 

O Elefante Branco e um romance milionário

O Elefante Branco é um prostíbulo lisboeta lotado de prostitutas brasileiras. Aberto em 1976, somente a partir de 1986, quando, com nova direção, passou a investir na importação de mulheres do Brasil, o local virou ponto obrigatório para executivos e políticos europeus. O bordel tem fama internacional. Foi de lá que os diretores envolvidos no escândalo da Volkswagen recrutaram algumas das mulheres para suas noites de prazer. Elas eram também enviadas onde estivessem: Paris, Berlim, Bruxelas. A situação de mulheres brasileiras em Portugal é mais que conhecida. Atraídas com promessas de muito dinheiro, ao fim das temporadas elas retornam ao Brasil pobres como antes e não raro com muitos problemas. Isso quando conseguem retornar à terra natal. 

Uma delas, Josélia R., era a preferida de Peter Hartz, o ex-diretor de Recursos Humanos e  mais famoso executivo do país.  
Josélia, tem 35 anos e uma filha menor. Após a divulgação de seu nome e foto, em um diário alemão, sofreu fortes pressões e teve que sair de Portugal, segundo informações da imprensa portuguesa. Josélia não conta com pelotões de advogados ou apoio de quem quer que seja.
Outras mulheres eram enviadas diretamente do Brasil. Pelo menos uma delas, Adriana, que não é a apresentadora da rede TV!, vôou pelo menos três vezes à Europa, entre 1996 e 1998, para prestar serviços a Klaus Volkert. Contudo, pela classe turística.
Gebauer refere-se a ela como uma mulher bonita, mas vestia-se de forma muito espalhafatosa. Não escondia o que era, diz ele, afirmando ainda que ela não era muito
inteligente. Conta que dava  "assistência" quando Volkert não tinha tempo e que temia pela vergonha de ser visto por alguém conhecido na companhia da mulher. É exemplar para o desprezo que os executivos dispensam após os momentos amorosos.

Gebauer confirma que Klaus Volkert, o sindicalista com status de executivo, um dos principais envolvidos no escândalo, conheceu  Adryanna Barros em 1998. Volkert confessou, em seis horas de depoimento aos procuradores que o indiciaram, muitos pormenores de suas atividades "extra-profissionais" a custo da empresa. Além de presentes e viagens à sua amante, a revista Stern, diante dos custos, levantou mais uma suspeita sobre os dois: Provavelmente foi embolsado muito dinheiro da Volkswagen diretamente, por ele e Adryanna, especula o periódico. Gebauer alega não poder dizer, mas concorda com a exorbitância gasta em sete anos de romance.
99% dos trabalhadores da empresa no Brasil não recebem tanto dinheiro em toda uma vida de trabalho, nem jamais ouviram falar de lugares exóticos como Ilhas Andamane, onde o casal se deleitava. 

Klaus Ziehe
Klaus Ziehe: Estamos no  Início
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Volkert também está envolvido na rede de firmas fantasmas montada para extorquir a Volkswagen. É um complicado sistema de, no mínimo, 8 empresas em diversos países. O Ministério Público ainda investiga sobre o assunto. Helmuth Schuster, ex-diretor de Recursos Humanos da checa Skoda e comparsa de Volkert e Gebauer no intricado sistema de firmas, chegou a ter cogitada sua prisão preventiva esta semana. Seu advogado apressou-se a dizer que o mesmo não havia deixado o país em fuga e garantiu que ele se apresentaria ao Ministério quando necessário.
Sorte dele, na Índia já houve prisões no bojo do escândalo.  Em Portugal, onde o único elo do affair com o país são as pobres prostitutas brasileiras, o assunto tem recebido generoso espaço na imprensa, principalmente após a entrevista de Gebauer.
Na Alemanha, onde o caso não deixa as páginas dos periódicos, o instituto de pesquisa Puls-Navegation, especializado na indústria automobilística, revelou que, após a publicidade do escândalo, 20% dos potenciais compradores de um carro da Volkswagen desistiram da idéia, após o conhecimento dos fatos. O julgamento do povo parece estar chegando primeiro que o da justiça.  Klaus Ziehe, o promotor porta-voz, precisará fazer muitas horas extras.

Peter Hartz, mais famoso executivo alemão e sua queda por brasileiras

Leia o Escândalo da Volks em ordem cronológica

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