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| Sábado, 06/01/01
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O jornalista Carlos
Cardoso tinha em suas mãos três armas poderosas, que usava
contra os corruptos, os inimigos da jovem, frágil democracia
de Moçambique,
os obscuros líderes do crime organizado e usurpadores em geral: Um
raro faro investigativo, uma escrita ferina e direta e um jornal. No dia 22 de novembro
passado ele deixou as dependências de seu jornal Metical
pouco antes das dezenove horas, após fechar a edição do dia seguinte. Era uma quarta-feira
em Maputo (antiga Lourenço Marques), capital de Moçambique. Esta
época do ano é propícia a chuvas nesta região do continente africano, mas o dia havia sido
ensolarado e o calor dava lugar agora a um pouco da brisa morna e úmida,
vinda da baía de Maputo. As ruas e arquitetura da cidade são, em muitos aspectos,
semelhantes às de outras cidades, de outros países colonizados
pelos portugueses, o Brasil incluído. Até mesmo os nomes de
ruas são os mesmos
aqui e ali: Rua Marquês do Pombal, Avenida Fernão de Magalhães,
etc.. Jornalismo de combate Devia ser 18:58 h, quando Cardoso entrou no lado esquerdo, ao lado de seu motorista, do Toyota Corolla modelo 1999, com a placa MLN-0604 de propriedade do jornal. O automóvel seguiu pela Avenida Mártires da Machava, centro da cidade, que passa ao lado do conhecido Parque dos Continuadores, uma alusão aos tempos de colônia. Pelo percurso e trânsito naquela hora, os ponteiros do relógio deveriam estar marcando 19:02 h. Neste momento o Toyota de Carlos Cardoso é fechado por dois outros veículos, um de igual marca e outro, provavelmente um VW. O veículo da frente freia repentinamente, obrigando o motorista Manjate a parar bruscamente às margens da calçada. Cardoso abraçara o jornalismo
em 1975, o mesmo ano que Moçambique, com a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique)
liderando, alcançava sua independência. Ele iniciara a carreira
na revista "Tempo", passara pela Rádio Moçambique, pela Agência
de Notícias de Moçambique e, em 1992, fundou com colegas a
Mediacoop (Cooperativa de Jornalistas), na qual trabalhou até criar
o seu "Metical" em 1996. Executado sumariamente Ao frear subitamente
o automóvel, Cardoso e seu motorista devem ter percebido que se tratava
de uma emboscada. Descendo do automóvel da frente, dois homens,
armados de metralhadoras, avançaram pela calçada e descarregaram
suas armas em rajadas que mataram instantaneamente o jornalista e feriram
gravemente o motorista Carlos Manjate. Uma cena digna de Chicago dos anos
30, em plena passagem para o século XXI. Tombava ali não apenas um combativo
jornalista, mas também conceitos e pressupostos sobre o que há
de verdade e de falso, quando se fala de países do terceiro mundo
que tenham alcançado Passividade oficial revolta entidades internacionais Passados quase dois meses do bárbaro
crime a polícia sequer recebeu o laudo técnico da
autópsia. O motorista Manjate somente seis semanas após
foi ouvido. Testemunhas oculares, como vendedores de rua que possuem suas
barracas pertíssimas do local do crime, não foram procuradas
ou intimadas a depor. A imprensa do país tem contribuído mais
para elucidar o crime, que os responsáveis oficiais. Relatório do "Comitee to Protect Journalists" inclui Cardoso e jornalista brasileiro Nesta última quinta-feira (04/01/01) o CPJ (Comitee to Protect Journalists) organização empenhada em proteger e denunciar violências às atividades jornalísticas em todo o mundo, divulgou o relatório anual da entidade. O comunicado revela que 24 jornalistas morreram em 2000 no exercício da profissão no mundo inteiro. Destes, dezesseis foram assassinados. Entre eles encontram-se dois profissionais de países da língua portuguesa: O moçambicano Cardoso e o brasileiro Zezinho Cazuza da Rádio Xingó FM, de Canindé de São Francisco, em crime encomendado (março 2000) pelo major Genivaldo Galindo, a quem Cazuza acusava de corrupção. O assassinato repercutiu no Brasil e o autor confessou ter sido contratado por Galindo para cometer o crime por 1500 dólares. Vê-se que as semelhanças acima referidas realmente não se resumem apenas a traços arquitetonicos, nomes de ruas e passados coloniais. Links relacionados: Lista do CPJ - Comitee to Protect Journalists
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