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27/11/99 
Este artigo foi reproduzido na íntegra pelo Jornal do Brasil de 29/11/99.
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Dossiê Liechtenstein- O caminho seguro da lavagem de dinheiro
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O castelo de Hans Adam II.....................
Qual país faz fronteira com a Áustria, fica no centro dos Alpes, a moeda corrente é o franco (suiço) e o segredo bancário é lei ?
Errou quem imaginou que fosse a Suiça: O principado de Liechtenstein espremido com seus 160 quilômetros quadrados que se resume praticamente à capital Vaduz, entre a Áustria e a pró- pria Suiça, é o porto mais seguro para dinheiro de origem duvi- dosa de todos os recantos do planeta. Não é por menos que Hans Adam II, o autoritário príncipe do Estado anão, tornou-se o mais rico de todos os membros de familias reais do antigo continente. Atualmente envolvido numa briga por mais poderes com o peque- no parlamento local, Hans Adam II, que já prometeu vender o principado a Bill Gates, se sua vontade fosse contrariada, soube aproveitar como ninguém mais, o espaço aberto pela insegurança geral dos paraísos fiscais  e bancários concorrentes.
Castelo

Um Dossiê revelador

Agora o principado precisa lutar contra a fama de ser o buraco negro mundial da lavagem de dinheiro criminoso: Um dossiê elaborado por ninguém menos que o serviço de informação da Alemanha (BND -  Bundesnachrichtendienst) faz revelações aterradoras: O esquema montado no país nanico dedica-se não apenas a atrair cidadãos insatisfeitos com os impostos cobrados em vizinhos como a própria Alemanha. Mais que isso Liechtenstein, com seu sistema de agentes fiduciários e bancos, tem prestado serviços de primeira qualidade na "legalização" e administração de dinheiro sujo pertencente a componentes da temida máfia russa, a grupamentos mafiosos da Itália e, pasmem todos, aos barões da droga da América do Sul.

O dossiê de trinta páginas, cujo conteúdo jornalistas do semanário Der Spiegel tiveram acesso e confirmaram em uma consulta feita pela Abknet, foi entregue aos circulos de escalão superior do governo Schroeder, entre eles o ministro do exterior Joska Fischer, do interior Otto Schily, cujos subalternos são responsáveis pelo combate ao crime e o ministro da fazenda Hans Eichel, que tem entre seus auxiliares diretos Caio Koch-Weser, o brasileiro-alemão que é vice-ministro (Abknet News 30/04/99).
Segundo o Der Spiegel, o dossiê arruinou definitivamente a já abalada reputação do principado. Uma cumplicidade incestuosa dos três poderes com os bancos locais e os cerca de 120 agentes fiduciários, que na verdade são "laranjas" oficiais, armou no coração da Europa mais desenvolvida, um sistema intransponivel de apoio ao crime organizado global.

Em 1996, uma prisão feita em Washington pelo DEA (policia anti-droga americana) levantou as orelhas de outros governos e policias pelo mundo afora: O consultor financeiro suiço Karl  Burkhardt foi autuado em flagrante ao cair numa armadilha montada por um agente disfarçado de traficante. Após transacionar quantias menores, Burkhardt receberia num quarto de hotel uma mala contendo dois milhões de dólares, que deveriam ser lavados de forma perfeita através de offshores em um banco de Liechtenstein, operação que ele assegurava como ideal para "lavagens". 
Burkhardt, sobre o qual recaiam há muito suspeitas de ser uma das principais pontes de lavagem de dinheiro vindo do tráfico, entregou dois coelhos de uma só cajadada: Ele próprio e a descoberta do principado como rota do dinheiro sujo. Apenas através de acasos como este, ou como o de um misterioso disquete de computador que surgiu em 1997 contendo uma lista de nomes de pessoas que teriam uma fundação em Liechtenstein, (de todos apenas o diretor de cinema Oliver Stone confirmou), consegue-se  saber alguma coisa sobre o assunto.

Como funciona

Desde a década de 20 o principado (que faz parte da ONU) adotou a moeda da vizinha Suiça, estabeleceu por lei os requisitos  necessários para tornar-se paraíso fiscal, segredo bancário inclusive, e passou a atrair capital estrangeiro, 
mais precisamente contribuintes insatisfeitos do resto do mundo. 
Além do apoio mútuo e da lei do silêncio, o sistema funciona diferentemente de outros conhecidos. Apesar de seus treze bancos (em 1995 eram apenas cinco), um dos quais pertencente ao próprio príncipe Hans Adam II através dos 99,7% das ações que possui da Liechtenstein Global Trust, a espinha dorsal da engrenagem  é formada entretanto pelos cerca de 120 agentes fideicomitentes legais e juramentados oficialmente, uma espécie de procuradores, responsáveis pela criação de fundações onde o dinheiro torna-se anônimo antes de partir para qualquer destino. A quantia mínima é de 14.000 dolares que primeiro seguem para Liechtenstein. Um contrato, na maioria das vezes desses universais (como contratos de alugueis no Brasil), é assinado entre as duas partes (o tal procurador e o investidor). A fundação é registrada, aberta pública e oficialmente no principado. Apenas o nome do agente fiduciário aparece, o investidor jamais será localizado. O estatuto, único papel onde consta o nome do proprietário da fundação, vai para um cofre de alta segurança e jamais virá a público.
Quem quer apagar ainda mais as pistas, abre a uma só vez mais de uma fundação. Os nomes podem ser exóticos como Splash Foundation ou sérios como Nahual Foundation, do diretor Oliver Stone, que argumentou querer rodar um de seus filmes no principado, ao ser indagado pelo motivo de sua fundação.
A partir deste momento o dinheiro está apto a fazer qualquer percurso no globo terrestre: Bolsa de Tóquio, banco na Suiça, ilhas Cayman, voltar ao país de origem ou simplesmente ficar em algum dos bancos do principado. Onde quer que passe, apenas o nome da fundação aparecerá. Em algum lugar as pistas podem se perder e a reconstituição vai ficando cada vez mais dificil, de acordo com o percurso e o método utilizado.
Para 32.000 habitantes  do lugar existem nada menos que 75.000 fundações administrando, estima-se, quase 100 bilhões de dólares. O pequeno Liechtenstein se afoga em dinheiro.

O golpe do BND: Bancos grampeados

Apesar de alguns processos de sonegação de impostos na Alemanha deixar vestigios de dinheiro entrando no ralo de Liechtenstein, todas as tentativas de autoridades do país de um cooperação com os responsaveis do principado esbarrou apenas em evasivas, negativas e silêncio da parte dos súditos de Hans Adam II. 
A rixa aumentou nos últimos anos, quando sonegadores arrependidos ou temerosos, entregaram-se voluntariamente ao fisco, aproveitando a benevolência da lei para quem se auto-denuncia. Muitos deles confessaram nos caminhos tortuosos do dinheiro as famigeradas fundações.
Isso aumentou a atração dos serviço inteligência do país, já com o trabalho diminuído com o fim da guerra fria. O azar caiu para o principado. 
Na ponta sudoeste da Alemanha, proximidades das fronteiras com a França e Suiça fica, encravada no final da famosa floresta negra, a mais moderna central de grampos da Europa. Ali, rodeados de enormes antenas parabólicas e imóveis de tetos esféricos, espalham-se prédios térreos em cujo interior aparelhos de última geração e técnicos especializados grampeiam tudo que se imaginar. Inclusive satélites.
O BND só tem como empecilho o fato de ser impedido de auscultar ou grampear operações envolvendo cidadãos ou entidades e empresas da própria Alemanha. Afora esta exceção nada é proibido.
Os bancos de todo o mundo fazem suas transações internacionais através dos satélites Intelsat, uma das especialidades da central do BND. Assim são gravados movimentos e seus protagonistas do mundo inteiro que depois sofrem um rastreamento e estudo profundo de nomes, origens, destinos.
Com base nestes dados foi preparado o Dossiê que está dando e ainda vai dar dor de cabeça em muita gente mundo afora.
 

Veja aqui alguns Links relacionados com a reportagem acima: Homepage oficial da famila real de Liechtenstein
VPBANK- Um dos maiores bancos do principado
 BND- Serviço de Informação da Alemanha

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