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- 24/08/2003
ABKnet News Por Antonio Bulhões
Sarajevo é ainda hoje uma cidade que traz na sua arquitetura as marcas da guerra. Ruínas, resquícios de bombardeios, misturam-se com bares, cafés, lojas e comércio em geral. O movimento de pessoas - durante a noite uma multidão de jovens invade as ruas - enche de vida e esperança a tentativa de apagar as lembranças de um dos mais sangrentos conflitos dos últimos tempos. É ali, no murmurinho de gente, artistas se apresentando nas ruas por uns trocados e turistas, que fica um bar chamado Brasil. O Bar Brasil é um dos badalados pela cena local. Na verdade o repertório musical brasileiro é restrito e dá lugar ao kitsch pop-latino de Rick Martin ou Jennifer Lopez. Mas quem já se preocupa com isso? Um amigo acabara de visitar Sarajevo, anos atrás, e contava de sua viagem. A paz tem o efeito de uma chuva sobre o campo, depois de um longo período de seca: O verde brota por todos os lados como por mágica. Assim são as pessoas nas ruas de Sarajevo, irradiando esperança, procurando ser feliz e esquecer o passado. Ou no mínimo adormecê-lo. O amigo, que não é brasileiro,
me dizia que por duas vezes algo lembrara nosso país durante sua
permanência na cidade: O Bar Brasil e a presença de um brasileiro
que estava em missão pela ONU. Um brasileiro típico na aparência
e no costume de não soltar o celular, dizia ele. Nunca imaginamos
a fatalidade que reservava o destino daquele brasileiro.
Vieira de Mello, como viria a ficar conhecido na imprensa internacional, fez sua carreira sem nunca ter pertencido aos quadros oficiais da diplomacia ou do governo brasileiro. Era desses brasileiros que partem para sempre, fazem sua vida, sem nunca abandonar completamente a idéia de um dia voltar. Mesmo sabendo que jamais voltarão. Outra coisa típica de brasileiro. Talvez esse enraizamento inconsciente ajude a enfrentar obstáculos naturais para quem deixa suas origens. Qualquer coisa a gente retorna, e pronto. Funciona como um derradeiro refúgio em caso de dúvidas. Vieira de Mello não teve chance de refúgio em sua última missão. Olhar o mundo com olhos de brasileiro é
diferente de olhar o mundo com olhos de norte-americano, inglês,
alemão, árabe, asiático.
As injustiças sociais, nascer e crescer vendo um assombrador desnível econômico e a falta de perspectivas para boa parte da população também fazem parte da formação de um brasileiro. Em uns isso desperta uma visão crítica, em outros revolta, em muitos a indiferença. Não tão maniqueísta assim, é verdade, mas em linhas gerais dessa forma. Sérgio Vieira de Mello não tinha intenção de levar a paz ao mundo, quando deixou o Brasil. Sorbonne era o sonho de boa parte dos conterrâneos de classe média de sua geração. Mas com certeza seus olhos de brasileiro o ajudaram na ascensão para um dos melhores profissionais da ONU. Suas missões davam-se no terreno
dos vencidos, humilhados e perseguidos. Intermediar, negociar interesses
antagônicos, organizar ajuda humanitária e governos, sem apresentar-se
com a arrogância dos vencedores, olhando e tratando de igual para
igual os interlocutores, não de cima para baixo, é uma virtude
que exige mais que diplomacia. Para isso é necessária uma
aptidão que brota dos sentimentos. Qualquer um, seja de onde for,
pode possuir este talento. Mas no seu caso, o coração de
brasileiro facilitou as coisas. Foi guiando sua habilidade para enfrentar
para enfrentar os conflitos.
Há duas coisas que não são
necessárias, nem Sérgio Vieira de Mello concordaria. A primeira,
querer idolatrá-lo como herói. A morte fazia parte dos riscos
de seu trabalho. Como profissional competente, ele era consciente do perigo
que rondava permanentemente suas atividades. E, com segurança, não
foi a primeira vez que sua vida esteve por um fio. No mesmo atentado morreram
muitas outras pessoas, além de Vieira, que estavam ali cumprindo
o seu dever. Ele não era um Dom Quixote.
Seja quem for, o ou os assassinos são
decididamente extremistas, pertencentes a uma minoria movida pelo ódio.
Eles não são representativos em nenhuma sociedade, nem a
iraquiana nem de qualquer outra nacionalidade.
Por fim nada resta do que o profundo lamento
que segue uma morte prematura, injusta e violenta. Distante da familia,
distante da terra natal, distante da paz, a morte assume um caráter
ainda mais trágico. Vieira foi impedido de cumprir sua missão.
Quem sabe uma missão impossivel. Somente o tempo irá responder.
Sobra a esperança de que um dia, como Sarajevo, Bagdá possua
também seu Bar Brasil e suas ruas emanem o murmurinho de jovens
e turistas.
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